Milagres

Fazendo o caminho de Santiago ao contrário (passada que foi Burgos) é sempre um encanto de ver S. Jean Pied-Port, transposta a fronteira, já na parte basca de França. O burgo medieval, a ponte, e as águas claras. Mudar de país, e de língua.

Reservo sempre um momento para parar no Col de Semport. Se a viagem for de moto, se a pressa não for muita, é certo e sabido. Desembocar em Oloron – Sainte Marie, e de lá procurar a auto-estrada. Era assim a um domingo, no início de Setembro. O ar molhado e espesso, silêncio apenas perturbado pelo tilintar dos chocalhos, rebanhos a pintalgar de branco as chapadas das colinas verdes.

Passando pelo caminho, vendo os sinais que orientam os peregrinos, notando as caixas esmolares nas igrejas, avaliando os comércios de artigos religiosos, em nenhum sítio se vê a informação ao peregrino que lhe explique que se alguma graça divina é provável que alcance – talvez uma reviravolta miraculosa que lhe mitigue uma aflição –, outra graça tem já. A de percorrer uma estrada que está ladeada de um dos maiores milagres da história: uma Europa em paz por quase setenta anos.

Coisa nunca vista, e que contada a um novecentista ou oitocentista, ou setecentista, diriam mentira ou sonho inalcançável. Uma Europa sem fome e miséria endémica, sem que houvesse gente fuzilada ou massacrada, ou passada a fio de espada. Ao clero europeu não lhe pareceu necessário pôr lá os sinais a explicar aos peregrinos que passam por um milagre. Nem a nós, os europeus (se o apodo merecemos) do sul nos passa pela cabeça perguntar às igrejas nacionais (depois de o apoio europeu nos estabilizar as democracias que recebemos de mão-beijada) o que andaram a fazer enquanto elites cúpidas destruíram as instituições e reduziram a economia a escombros, roubaram os cofres, perverteram a lei (quando a não criaram pervertida) e pulverizaram a decência da linguagem política.

Não nos ocorre perguntar o que farão num cenário de nova guerra civil como a Espanhola (Severiano Teixeira diz que não mas é melhor a gente lembrar-se que para cá do Ebro e para lá da Floresta de Katyn díficilmente se pode considerar Europa) de antanho, cujos fugitivos atravessaram os desfiladeiros dos Pirinéus. Os da guerra, e os da miséria a seguir à guerra. Refugiar-se-ão nos oratórios a rezar pela salvação das almas? Ou indicarão os corpos dos exaltados a fuzilar para que a tranquilidade e a ordem divina possam reinar de novo? Uma parte do clero fará uma coisa, e a outra a outra coisa a bem da especialização? Ou fuzila-se ao raiar do dia e reza-se ao cair da tarde segundo as regras do cânone destas coisas?

Sobre soliplass

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