Cintratorricando títulos

Passando há umas semanas atrás pelos alfarrabistas da Praça de Itália em Buenos Aires houve aquela visão que causa sempre agrado: um título de Lobo Antunes. Embrulhado em plástico (aquilo é uma carvoaria de pó negro de asfalto e do fumo dos motores que lhe passam ao lado numa avenida movimentada), mal se lhe conhecia o título: Ayer no te vi en Babilónia. O livro causa agrado também por um outro motivo; tem um verbo no título. Porque ter um verbo no título é coisa de gritos, ao que parece.

Cada vez mais gosto de ver, nas cidades ao longo do mundo por onde passo, os livros de Lobo Antunes expostos. Quer sejam usados em alfarrabistas, quer sejam novos nas livrarias. Lobo Antunes, queiramos ou não, goste-se ou não do seu estilo, tem um trabalho admirável de dar voz através dos seus romances – e no âmbito da sociedade portuguesa – a quem não a tem: loucos, abandonados, pobres, encalhados na vida, falhados na profissão; e pretos – como no Caso de O Meu Nome é Legião. É, tem sido, para além de uma obra de arte literária, uma instituição representativa. Os seus romances têm sido em tantos casos como que um «empréstimo de voz»: o que o torna um exemplo de humanismo numa terra desumana. Num país que calca a voz dos seus naturais, e as suas razões.

Recentemente tenho recebido na caixa de e-mail (penso que por via das mail-list em que constam os ex-alunos do ICS) uns comunicados que tratam da divulgação de artigos de Eduardo Cintra Torres; ao que depreendo enviados pelo próprio. Inclui-me no tratamento de «Caros amigos», coisa que não lhe sou nem quero ser, e divulga artigalhada vária: como esta ou esta. Curioso, que tão «fino das orelhas» precise de despertar nos outros curiosidade de o ler por essa via de auto-publicidade. Dava-se por aí num blogue uma reprodução de um seu queixume, alegadamente por se ver afastado das colunas do Público. A coisa rezava mais ou menos assim:

«Escrevi sempre com frontalidade, que é característica dos independentes. Não usei a crítica para recados ou subentendidos. Fui a direito. Ser frontal e independente, porém, tem um preço enorme em Portugal. É-se alvo de despedimentos, ataques e de insultos; muitas pessoas não entendem, ou não têm a educação para entender, que a frontalidade é, por natureza, bem educada; a frontalidade não dá “tachos”, ao contrário do que tantas vezes li a meu respeito, antes rouba oportunidades e traz dissabores, incluindo processos judiciais e a interrupção de colaborações mediáticas, como me sucedeu há anos. Sempre considerei que o poder político não apreciava o meu trabalho nesta coluna, dado que os independentes, ao contrário dos lambe-botas, dos intolerantes e dos medrosos, são imprevisíveis e têm tendência a querer dizer a verdade, mesmo que sofram as consequências disso

É claro que uma coisa assim impressiona qualquer espírito sensível. É verdade que ganhou pergaminhos de paladino da liberdade de informação contra o regime «jacobino» de Sócrates, foi pela liberdade de expressão, ou mais simplesmente pela santa liberdade. A liberdade à direita óbviamente. A liberdade de «tomem lá uma quinhentola por mês, e ide expressar-vos em liberdade», tenham a liberdade portugueses de escolher entre passar fome e andarem descalços vossos infantes: coisa que é saudável, previne micoses, e enrija as solas dos pés. Enfim, a liberdade concebida por essa tal direita – da qual tem sido uma diligente missmónicalewinsky sempre receptiva a mais uma excreção. Curioso que, um tal paladino da liberdade tenha escrito isto a 31 de Outuubro de 2009 no Público, coisa que guardei por exemplo de coisas nojentas publicadas em jornais portugueses:

«Os autores oitocentistas e novecentistas não usavam verbos nos títulos dos romances. Stendhal, Balzac, Flaubert, Zola? Zero. Dickens, Hardy, Conrad? Zero. Goethe, Thomas Mann? Nada. Dostoievski, Tolstoi? Idem. Nenhum em Eça. Em Camilo, há dois ou três entre dezenas: Onde Está a Felicidade? e O Que Fazem Mulheres. Mas Camilo está sempre perdoado. Aquilino tropeçou três vezes: no lamentável título Andam Faunos pelos Bosques, coisa do início da carreira, lá mais para a frente no aceitável O Homem Que Matou o Diabo e na excelente excepção à regra, no final da carreira, Quando os Lobos Uivam. Agustina? Zero. José Cardoso Pires, Carlos de Oliveira, Vergílio Ferreira, José Saramago? Zero. E os amaldiçoados Ferreira de Castro, Gaspar Simões, Alves Redol e Fernando Namora? Zero. Sim, Dinis Machado escreveu O Que Diz Molero, mas quando a forma verbal se segue a uma conjunção subordinativa “que” ou “quando” o verbo aceita-se melhor. Miguel Sousa Tavares escreveu qualquer coisa com David Crockett que dá vontade de deixar morrer a personagem sem mesmo começar a leitura. A minha desconfiança em Por Quem os Sinos Dobram, de Hemingway, vem de longe, mesmo sabendo que o filme tem Gary Cooper e Ingrid Bergman. Ainda menos gosto, à excepção da cena inicial, do filme E Tudo o Vento Levou, um épico de plástico americano. A tradução portuguesa tem mais “verbo” que o original Gone with the Wind. Que títulos com verbos são próprios de certa literatura não é um preconceito meu. Um título com verbo promete xarope. Consultei na Wikipédia os 145 títulos da espanhola Corín Tellado editados em 1972 e 1973 (sim, em apenas dois anos). Desses, 105 têm um verbo no título (72%). Em Barbara Cartland a percentagem é menor, mas facilmente encontrei dezenas. Contudo, até agora nunca tinha visto um título com dois verbos, ainda por cima com ponto de interrogação. Ia morrendo ao ler o título do novo António Lobo Antunes: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar? Eu não sei que cavalos, nem nunca saberei

A gente até o imagina a babar-se de gozo ao fazer a estatísticazinha. Teria usado o o Programa de Análise Estatística SPSS? e feito os testes e tudo? O grande paladino da liberdade não deixa aos outros a liberdade de escolherem os seus títulos. Que tem ele ou outro que ver com os títulos que um autor escolhe ou deixa de escolher? Infelizmente para ele, o leitor por esse mundo fora lê principalmente o livro, não o título. Suspeito eu, que o outro que vejo na revista Ler a visitar George Steiner, se sentirá pouco incomodado que não saiba que cavalos. Por mim, se fosse director do Público, nem tinha deixado passar aquilo, nem ele lá escreveria mais uma linha. O espaço nos poucos jornais de qualidade é precioso;deve ser usado com responsabilidade. Não para destilar venenos, ainda que munidos da melhor estatística. Ironia do destino, os títulos com verbos do outro ainda cá andarão quando ninguém mais se lembrar do artigo. Ou não?

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , . ligação permanente.

4 respostas a Cintratorricando títulos

  1. Não deveria gastar tanta cera com tão reles defunto. Em todo o caso, vale a pena pelo prazer de o ler.

  2. Eheheh… Cheguei aqui através de um link no blogue do André Benjamim e só agora percebi que o post é de 2011.

  3. De vez em quando há que «desenterrar» posts antigos – que de qualquer modo se mantém actuais. Abraço.

  4. Com certeza, André. O lapso foi meu, que não reparei na data. Abraço.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s