Vint’cinco tostões

A expressão que se usava por vezes no tempo do dinheiro antigo – não valer uma coisa “vinte e cinco tostões”- teve para mim um outro valor. “Vinte e cinco tostões” estiveram sempre associados na família a um episódio que o meu pai contava com orgulho.

Eram os anos da Segunda Grande Guerra, pobres e incertos. Arranjava-se uma estrada no concelho, os trabalhos pararam por vir o inverno. Na pequena praça, um homem que tinha vindo do norte trabalhar na estrada, ia pedindo trabalho aos proprietários agrícolas locais. O Ganhão. O nome próprio nunca o soube, nem o meu pai se lembra de qual teria sido. Um proprietário da terra, homem de posses conhecido por avareza e ganância, juntou as queixas dos tempos que corriam (da época que ia má) às do Ganhão. E lá lhe foi dizendo que, indo a época má, não lhe podia pagar nada; mas que lhe dava de comer, por pena dele. Foi então que o meu avô traçou o pau em cima dos joelhos (não era coisa pouca, tinha famas de varredura de certos arraiais) e disse ao outro:

– Tás na miséria tás! Do que tu precisavas era qu’eu te enfiasse já o bico do pau pelos olhos adentro que te varasse a alma, seu ladrão! Se tens alguma coisa que estar aqui a fazer pouco do homem seu guloso? – Virou-se para o outro:

– Ó Ganhão! Vá você primeiro aí por essas terras e por esses casais e peça serviço. Se ninguém lho der, vem p’ra mim! Dou-lhe eu de comer e mais vint’cinco tostões por dia. Os invernos são grandes e eu não tenho muito que fazer, mas alguma coisa se há-de arranjar.

Experiente do frio que tinha passado nas trincheiras de Flandres, franqueou-lhe o palheiro para dormir desde logo e a casa do forno: «pode fazer lá o lume para se aquecer, queime da lenha que lá está, não esteja a passar frio.» Contava sempre o meu pai, orgulhoso do seu, a farsada que viu em pequeno na praça. Ao longo desse inverno voltaram pedra e abriram buracos para meter tanchões que viriam a ser um olival na encosta da serra. Contava, como o Ganhão ganhou uma fidelidade de irmão ao meu avô, talvez nem tanto pelos vinte e cinco tostões da jorna, mas por aquela defesa irada que ameaçou varar a alma ao outro. O olival da encosta da serra é hoje um maquis cerrado. As oliveiras arderam já por uma vez, nem todas sobreviveram. Não valem os vinte e cinco tostões que valeram. Quando muito, relembram aquela história dos dois homens e do meu pai ainda adolescente, com alavancas e alferces, a voltar pedras e abrindo buracos, sacas de serapilheira pelas costas. As sacas penduradas na cabeça e atadas por um cordel à cintura eram o que lhes livrava a chuva, naqueles invernos grandes.

Por ter morrido quando eu ainda era muito novo não o conheci a pontos de o entender, o meu avô. Lembro-me dele, samarra pelos ombros, autónomo e viúvo, seco e alto. E de uma das últimas coisas que me disse ao ver passar a família – da qual o outro que não podia dar mais que o comer ao Ganhão era patriarca -, a caminho da missa um domingo de manhã: que quando pensasse em comprar uma junta de bois ou qualquer coisa do género numa terra que não conhecesse que fosse ao domingo, e que visse quem estava à missa. Que com os da frente que não fizesse negócio. Gente velhaca -, seriam os primeiros a enganar um home.

A regra do velho homem é boa, pelo que pude observar. Apesar de juntas de bois já não haver quem as venda. Que se afaste a gente das primeiras filas da vida e da sua fauna; por não se encontrar de ordinário lá nada que valha vinte e cinco tostões. Dos dele – bem entendido. Nesta vida incerta até o valor real ou nominal do dinheiro varia: consoante a mão.

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