A possibilidade da cultura

É um (se não o) grande estudo de referência na história do Estado Social norueguês. De Anne-Lise Seip, O Estado de Ajuda Social Toma Forma  e O Caminho para o Estado de Bem-Estar (ou Welfare State, na terminologia de língua inglesa).

Na p. 134 do segundo volume (à direita) aparece o relato da investigação dos médicos socialistas Karl Evang e Otto Galtung publicada sobre o título (numa tradução livre) Dieta nas Casas Modestas Norueguesas. A dieta era tão pobre e incompleta que (segundo os médicos) até os esfomeados tinham perdido o apetite. Estes estudos e publicações integravam-se num movimento levado a cabo pelos meios socialistas e trabalhistas nos anos 30 para tentar estabelecer nas diversas áreas da vida humana padrões mínimos decentes para a existência dos seres humanos. Se os liberais do séc XIX, a exemplo de Jonh Stuart Mill tinham advogado a liberdade de expressão e conciência como veículo de desenvolvimento das capacidades humanas, os movimentos trabalhistas e os partidos de esquerda no séc. XX foram seus dignos herdeiros (pelo menos na Escandinávia onde não tiveram grande tentação totalitária) no pugnar pelas condições materiais em que esse desenvolvimento possa ocorrer.

Saber isto, lendo-o da fonte e citando da primeira edição, é claro, um sinal de cultura. Mas é principalmente um fruto da oportunidade. Estas coisas custam tempo; oportunidade; motivação ou curiosidade; e principalmente, dinheiro.

Via a foto abaixo das celebrações da cultura em Guimarães, um dia destes no JN. Aqueles prefilados e gravatosos pinguins, as cabeleiras das madames, rimam tanto com cultura como a tundra nórdica pastagem de renas  rima com lagares de azeite. Afinal foi esta gente que (quer pervertendo a linguagem através de falsidade deliberada ou eufemismo, quer através da degradação económica a que presidiram e deram aval por actos e palavras), contribuiu para que a cultura seja uma miragem para a grande parte dos seus concidadãos. Quer em oportunidades, quer em preço que possam pagar. Aqueles que deveriam ter sido incentivos de cultura são os seus coveiros. Quanto mais não seja pelo exemplo que deixam…

Interessante, interessante, seria visitar-lhes as bibliotecas lá de casa. E inquirir-lhes quantos volumes pagaram do seu bolso… Ou, modificando um pouco o Pacheco, puta que lhes pariu a cultura!

Sobre soliplass

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7 respostas a A possibilidade da cultura

  1. Panurgo diz:

    Que capas velhas são essas por debaixo da biografia do Pacheco (um tipo que nunca li, e parece-me que vou morrer sem lhe passar a vista em cima)?

  2. soliplass diz:

    hum… boa pergunta (só venho a esta casa meia dúzia de dias por ano e isto é alfarrabiaria quase que ao abandono)… se não me engano, a capa velha de cima é uma compilação de frases ou citações francesas. Não lembro quem editou. Por baixo o Retouches a mon retour de l’URSS do André Gide. Por último, um Démocratie en Amerique de Tocqueville, com a curiosidade de ser parte da edição da obra deste por parte da viúva do autor.

    Se não passar a vista pelos escritos do Pacheco, esta biografia vale a pena. Pelo menos até à metade que li.

  3. Panurgo diz:

    O meu problema é que há muita gente má a dizer bem dele… vi no youtube a reportagem que fizeram dele; na bloga toda a gente gosta muito, etc. Um coro de gorduchos a exaltar a pobreza e a liberdade… é de desconfiar. Eu exagero: li um pouco do Libertino. Não me disse nada.

  4. soliplass diz:

    LOL, bem conheço essa desconfiança, e muita coisa tenho evitado por via do panegírico de modismos e caravanosas gentes que exaltam a poesia do desmando e da aventura mas praticam a prudência e o segurinho, que a vida não anda pra brincadeiras…

  5. Panurgo diz:

    Enfim, isto não é um confessionário… mas, lá está, vai um grito na alma (?) cada vez que uma daquelas putas de lisboa se lembra de alçar a perna ao Céline… enfim, tristezas minhas.

  6. soliplass diz:

    As mesmas que tanto lhe admiram o anti-semitismo como admiram a semítica cachaporra nos palestinianos? Enfim, HansJoachimMorgenthauzinhas da nossa horta… ou a realpolitik aplicada à criada lá de casa.

  7. Panurgo diz:

    E os mesmos que se esquecem que a Viagem, enfim, é uma viagem às tripas deles.

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