Prémios e distinções

E era então que chegava por aqui à notícia (note-se a fantástica ironia que o tempo deixou cair sobre a frase da notícia “O Estado está habituado a mudar as regras quando lhe convém e como lhe apetece, independentemente dos compromissos assumidos e publicados“) de uma recusa indignada.

Na aparência, justificada. Ou a velha história do que se faz pela frente dever ser distinto do que se faz por trás (sem brejeirices, que o assunto é sério!!!…). Vários autores, com quem não me atrevo a comparar – todos dignos de fazer sombra àquele doctor invincibilis et subtilissimus com que apodaram Guilherme de Ockam – aplaudiram o artista Paulo Nozolino que assim remeteu o organismo estadual ao nobre ofício de catar pulgas a chimpanzés.

 Pela época (finais do séc. XIII, iníco do séc. XIV) em que Dante compôs a sua obra sobre política De Monarchia, apareceu uma outra obra anónima, O Diálogo entre o Clérigo e o Cavaleiro, a que alude Gaetano Mosca na sua História das Doutrinas Políticas. Defendem-se ali, em forma de diálogo, duas posições distintas. O clérigo defende a imunidade dos bens da Igreja. Já o cavaleiro defende que dado que os bens daquela lhe foram outorgados para que cuidasse dos pobres. Não o tendo feito a Igreja e suas hierarquias, era justo que – e uma vez que o clero vinha acumulando riquezas inauditas – tais bens não fossem subtraídos à contribuição para aos encargos públicos. Dante, por seu lado, no De Monarquia, afirma – como Averróis e provavelmente sob a influência do seu comentário à obra artistotélica que nessa altura a Europa tinha redescoberto – que a humanidade necessita de um poder político que esteja acima das paixões humanas, que assegure a paz e a justiça, para que possa desenvolver as suas aptidões intelectuais e o seu potencial de progresso. Um poder político com uma finalidade, teleológico, ao serviço da comunidade que rege. Nesse sentido, é partidário do poder do Imperador. Objectaram-lhe que o Imperador deve estar sujeito ao poder espiritual do Papa, comparando-o ao sol, de quem o Imperador (por comparação com a lua) recebe a luz. Ao que Dante por sua vez objectará que a lua, realmente recebendo do sol a luz, não recebe o movimento.

Estas questões são velhas: as questões dos impostos, da finalidade e da autoridade do poder político, de quem paga e de quem ilumina, de quem decide, e com que fim, de onde se recebe o «movimento» e a luz. Não estou habilitado a comentar, sobre o mérito ou desmérito da obra fotográfica, sobre se a distinção traduzida em euros foi justa aplicação de fazendas públicas ou se os dez por %ento sobre os tais tantos mil euros, seriam devidos ou não. Afinal isso é matéria de fiscalistas e estetas. Talvez o artista tivesse toda a razão em indignar-se por lhe atribuírem uma distinção e em seguida lhe exigirem a tal percentagem. Foi -concedamos-lhe isso -, uma atitude indigna de cavalheiros, a resvalar para atitude de Camorra ou Cosa Nostra siciliana, tudo muito loiça da mesma formada do nosso Estado em que andamos…

Mas talvez a coisa seja ainda mais fundamental e anterior. O Estado português é uma organização que não apenas deixa de cumprir o seu dever primeiro que é assegurar a ordem e a equidade: vai muito além disso, ao proteger o bando de saqueadores vestidos nas melhores alfaiatarias que rouba e humilha diariamente toda uma população. É o primeiro a subverter os valores de que deveria ser guardião. É o primeiro deles (dos salteadores) e seu patrono, roubando mensalmente ao salário da «arraia-miúda» os mantimentos com que sustenta as suas sinecuras, com retorno mínimo a quem verdadeiramente as sustenta.

Que ao artista tivesse passado pela moleirinha em primeiro lugar aceitar uma distinção vinda da parte desse mesmo Estado (e paga com o dinheiro da populaça assaltada diariamente – de onde a «lua» recebe o movimento –, para usar termos dantescos) foi coisa que ultrapassou o meu entendimento. Ou ingenuidade. A ingenuidade que leva muitos de nós a acreditar que Orwell teria rejeitado uma distinção vinda do regime de Franco ou Estaline. Ou Primo Levi receber medalhão em ouro por mérito literário, fundido a partir dos dentes arrancados em Auschwitz ou Birkenau.

Sobre soliplass

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3 respostas a Prémios e distinções

  1. Panurgo diz:

    Não percebi muito bem o seu texto e não tenho paciência para ler o Viegas (outro escritor genial – haverá algum que não o seja?). Entre artistinhas e o Estado, não me meto – venha o Diabo e escolha, ainda para mais entre filhos dele.

    Fez-me ir vasculhar a livralhada, lá encontrei o Dante – parece-me um aviso, uma profecia sobre o Estado que o Belo preparava. A verdadeira Besta dos mares, da terra, dos céus, do espaço… o Le Goff chamou ao Dante o último grande homem da Idade Média – a dúvida é saber se de lá até cá nasceu outro…

  2. soliplass diz:

    E vc fez-me rir. Ao lembrar-me de um colega originário do norte da Noruega a quem tive que pedir um dia destes para falarmos em inglês, já que o seu dialecto natal é uma coisa pavorosa. Resposta dele quando lhe pedi desculpa por termos que trocar de língua já que eu não percebia metade:
    – não te preocupes… que lá do sítio onde eu venho, nenhum de nós sequer percebe o que acabou de dizer.

    Quando não perceber muito bem um texto não se culpe. À vezes nem eu depois de o escrever, à imagem dos tipos lá da terra natal do meu colega.

  3. Panurgo diz:

    Sou muito português – mesmo quando não percebo nada de coisa alguma, tenho sempre qualquer coisa a dizer ahah

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