Academia de Letrados

Se há irritante vermina que não foi incluída na taxinomia de Lineu (talvez por não ter ainda nesse século alcançado a Lapónia) são os caçadeiros de erros ortográficos que se topam aí pelas caixas de comentários. Haja um maduro que por lapsus calami involuntário se esqueça de vírgula, ou a quem escape a requerida consoante, e tem certa – por parte de um desses ínfimos esfola-gatos e mata-cães – a ameaça da forca ou do degredo nas Áfricas. Vendo a azáfama e o zelo de tais caçadores de erros (será que existe lá em casa salão de troféus de caça onde os penduram num ganchinho pela letra que falta, ou pela letra que sobra?) ocorre-me aquela história da alçaprema de Arquimedes. Em Michel Serres (Elementos para uma História das Ciências, Terramar Vol.I, p.133) discorre-se sobre o assunto:

É verdade que um novo sistema de numeração permite escrever os números do Arenário e os do Problema dos Bois, mas que dimensão real é preciso ocultar para que todas estas possibilidades teóricas se tornem credíveis? No século XVIII, Adam Fergunson, filósofo escocês da escola do «senso comum», tomando ao pé da letra a «promessa» de Arquimedes: «Dêem-me um ponto fixo e erguerei a Terra», calculou o tempo que um homem levaria para contrabalançar a Terra na extremidade de uma alavanca e deslocando-se à velocidade de uma bala de canhão para deslocar a Terra uma polegada. O resultado foi: 44 963 540 000 000 anos! Tudo se tornava claro, e o historiador Montucla entrevira-o na mesma altura: para lucrar com a superpotência que as teorias de Arquimedes parecem oferecer, é preciso tempo, muito tempo, tempo de que nem o matemático nem o seu hagiógrafo nos falam.” (sic.)

Quem do subido alto de vinte tomos da mais refinada das sabedorias censura o erro dos outros, não lhe passa pela caixa dos pirolitos fazer a si mesmo a pergunta simples e óbvia: teve tempo ou oportunidade de aprender? Teve vida na qual essa aprendizagem da correcta expressão escrita fosse utilizável sequer? A correcção formal é o bem último? O excelente e formal alemão de Carl Schmitt que fez a apologia do poder ilimitado de Hitler, o correctíssimo russo que defendeu a crueza de Estaline, a formalidade do latim eclesiástico que justificou a tortura da Inquisição e o confisco dos bens dos supliciados, deveriam servir de exemplos para que pensássemos um pouco…Padeceria de erro ortográfico ou era falho de correcção gramatical o decreto ou ordem que proibiu o D. Quixote de Cervantes, no Chile de Pinochet?

Já por aí escrevi como foi plantado algum do olival da família. Aqui há uns anos, durante a colheita da azeitona, o meu pai caiu de uma oliveira e fracturou uma perna. Já de idade respeitável, sofreu umas algumas complicações na sequência do traumatismo. Uma delas, embolia pulmonar. Seguiu-se um período longo de convalescença, em que nalguns dias o tino se lhe ia a parte incerta. Delirando, a sua preocupação era ainda com searas e fainas, se os animais teriam fome, admiração por uma cadela que daria com perdiz que fosse ferida d’asa cair a cascos-de-rolha. Sorria do animal sepultado há trinta anos como se o visse ainda a trazer-lhe a ave de olhos contentes e a abanar o rabo. Talvez nunca antes qualquer outra coisa por ele dita o tivesse revelado tão bem. Não tendo a racionalidade necessária para calcular as palavras e as histórias que o delírio lhe ditava, elas jorraram directamente de sentimentos de fidelidade, de bondade para com gente e bichos, ancorados no seu íntimo moral.

Fogos florestais entraram pela erva seca das terras, e lamberam também nesse ano uma parte dos olivais. Dezenas e dezenas de oliveiras velhas, por aqui e por ali, ficaram parcialmente queimadas. Lembro-me de dias em que o levava comigo, e tirando-o ao colo da furgoneta, o estendia em cima de uma manta à sombra de uma figueira aproveitando um sítio de erva macia. Enquanto ele ali dormitava, ia eu, munido de motosserra, cortando rente ou aproveitando o aproveitável. Vinha abastecer de gasolina e óleo, ou afiar a corrente com a lima redonda, ia falando com ele, tentando animá-lo, incutir-lhe alguma vontade de continuar a viver. Finalmente arribou. Desses trabalhos sobrou um Himalaia de troncos, transportados à eira velha. Foi aí também que passei tardes e tardes a rachar lenha à machada, às vezes na sua companhia. Dado o exagero de lenha desse ano, sugeriu que ia tentar vender (ou até dar) parte dela. Por mim nem quero saber da lenha nem das oliveiras, nem de terras nem de muros, e anseio pelo dia em que esse fardo da propriedade me seja retirado. É fardo demasiado cercado de gente repugnante, sem ponta de gente por onde se lhes pegue. Ilha de estercos em que eu e tantos nascemos já náufragos.

Um dos mais apurados caçadores de lapsos alheios na blogosfera publicava, um ano ou dois depois desse episódio, uma foto curiosa. Com comentário jocoso, obviamente. De um cartaz onde se anunciava a venda de lenha. Só que o que se anunciava para venda no tal cartaz era «lanha» em vez de lenha, e mais um ou outro erro. Só para tirar a “prova dos nove” telefonei ao homem nesse dia (a 15 de Março de 2010) a partir de outro país. Para averiguar se o telefone que constava do painel ainda continuava activo. Assim era: e o pobre homem lá me informou que não; que já não tinha lenha à venda, que esse anúncio era de há muitos anos atrás.

A foto é esta abaixo, e até à data de hoje ainda está pública com o número de telefone exposto aos olhos de todos num dos blogs mais lidos em Portugal, suas províncias e quintalórios. Desta, fui eu que lhe risquei o número abrindo-a com o paint, coisa que se faz em 30 segundos. Erudita récua de boécios e lucrécios logo ali se juntou a comentar o cartaz e num chiqueiro de chistes e larachas javardaram no exarado. Só um comentador (honra lhe seja feita) logo suplantado, discordou que se estivesse ali a gozar com aquilo – quer no post, quer no restante dos 29 comentários.

 

Tivesse visto ali o número de telefone do meu pai, em foto de painel ou tabuleta que tivesse colocado em propriedade sua e que anunciasse a venda daquela lenha que me custou a mim o suor e aos meus antepassados tal sacrifício, e nem que fosse por ele ao fundo do inferno, com uma tranca daquelas lhe armaria – mais em força que em jeito – congresso onde se “tirasse a escrita a limpo”. Eram favas contadas. Por mor de uma cartilha de senso mais lato.

Sobre soliplass

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2 respostas a Academia de Letrados

  1. Chama-me então Vossência, esfola-gatos e mata-cães, falando em forcas e em degredos para África. Pois deixa-me que te diga, isto está duma maneira que nos apetece a forca por mão própria, depois de arrimada a corda a muitos outros pescoços!, e quanto ao degredo em África, é bem-vindo, pois degredo maior que este não pode haver.
    A minha caçadeira está apontada a outros erros ortográficos, não estes, embora não consiga deixar de sorrir lendo a ementa chinesa onde se diz arroz chão chão ou a a tabuleta em néon que anuncia a Churrasqeira. De churrasco ficavam bem era certos javardos de duas patas…
    Enquanto não os assamos, cá fico a arder de saudades!

  2. soliplass diz:

    Sempre me pareceu estranho que um um fulano que dirija a caneta riscando umas letras num papel pense que sabe algo de muito mais essencial e válido que aquele que para chegar a tempo com uma carga prometida a Milão decide não por as correntes de neve à descida dos Pirinéus; e vai riscando uma trajectória com um camião TIR de trinta toneladas por aquelas curvinhas abaixo….

    Um é uma chocadeira de sabedorias, o outro um asno a erradicar, e tal… conheces a história.

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