Oslo, 22 de Julho

Aqueles que vão seguindo o Âncoras talvez tenham estranhado um período de pausa de Julho a Setembro. Estava na Noruega na altura do atentado ao Quarteirão do Governo e do massacre de Utøya, pelo que segui os acontecimentos de perto. Não quis na altura pronunciar-me sobre tudo o que assisti para não me imiscuir no que em Portugal se ia escrevendo sobre o assunto. Quanto mais se apostrofava contra Breivik no que se ia escrevendo na blogosfera portuguesa mais eu me lembrava do que levou Arendt a rever o seu conceito de mal “radical” tal como o tinha teorizado em The Origins of Totalitarianism. No que (em carta a Gershom Scholem), escreveu:

You are quite right: I changed my mind and do not speak of “radical evil”…It is indeed my opinion that evil is never “radical” that is only extreme, and that it possesses neither dept nor any demonic dimension. It can overgrow and lay waste the world precisely because it spreads like a fungus on the surface. It is “thought-defying,” as I said, because thought tries to reach some dept, to go to the roots, and the moment it concerns with evil, it is frustrated because there is nothing. That is its “banality.” Only the good has depth and can be radical.”

O indivíduo Breivik, parece-me ser pouco mais que um «não assunto», um incidente. As consequências do que fez, é outro assunto. Dos acontecimentos de 22 de Julho em Oslo e passadas horas no acampamento da juventude do partido trabalhista (AP) em Utøya, o que há a reter, o grande acontecimento foi a reacção popular. Não o carácter de um indivíduo, mas o carácter de um povo que não esteve disposto a abandonar as vítimas (mortos e familiares) à sua sorte. Os disparos em Utøya, são quase da ordem do acidental. Um tresloucado que prime um gatilho. O grande acontecimento de Utøya são os jovens que se ajudam uns aos outros na água, os populares anónimos que nos barcos salvam gente sem olharem aos riscos que correm.

Fui no dia seguinte depositar o bouquet que me cabia na esquina de uma rua que dá acesso ao quarteirão do governo, aqui:

A cidade nesse sábado estava silenciosa, cinzenta. Magotes de pessoas, em muitos com os filhos pela mão (as crianças eram frequentemente as portadoras das flores) dirigiam-se ao quarteirão do governo espatifado pela explosão, e à catedral onde começou a nascer o «mar de flores – blomsterhavet»

 Era assim por volta do meio dia de 23 de Julho que as flores se começavam a acumular junto à catedral onde decorreriam também algumas das cerimónias em memória das vítimas.

 Apesar do ambiente de mais que justificada consternação geral (não tinha havido tragédia daquela dimensão desde a invasão em 41) ver a reacção espontânea da população foi ainda um privilégio. E um motivo de orgulho. Para mim tanto mais agradável quanto não tive país de que me orgulhasse. O povo norueguês recusou espontâneamente que vítimas e familiares carregassem sozinhos o fardo da dor e da perca. As instituições funcionaram impecávelmente e fizeram jus à definição de Burke: uma gigantesca aliança entre os vivos e os mortos e os que estão por nascer. A conduta da família real e do primeiro-ministro Jens Stoltenberg, invejável. A pontos de a comunicação social dinamarquesa ter lançado a frase «também queremos um assim».

Michael Ignatieff há dez anos atrás tinha escrito a respeito de direitos humanos, em artigo publicado na Foreign Affaires (aqui, p.116) “[…] the ground we share may actually be quite limited – not much more than the basic intuition that what is pain and humiliation for you is bound to be pain and humiliation for me. ” O povo norueguês, demonstrou naqueles dias que essa é ainda a sua grande base de entendimento nacional, a sua grande regra fundamental. A semana passada um jornal de Hammar noticiava que um professor de uma escola local tinha publicado um comentário sarcástico que envolvia a memória dos que pereceram em Utøya. Expressava no Facebook o desejo de que o partido trabalhista enviasse novamente  mais jovens da sua organização juvenil AUF para a ilha, e que o ano oferecesse uma nova e boa temporada de caça na ilha. Foi despedido imediatamente. O grosso da população norueguesa e as suas instituições não estão dispostos a deixar que se desrespeite a memória das vítimas e dos familiares. Neste dia, das fotos acima, e nos seguintes, deixaram-lhe uma homenagem comovente. Esse foi o acontecimento importante, o acontecimento a lembrar. Vê-lo foi um privilégio.

Relembrando as palavras de Arendt:

“Only the good has depth and can be radical.”

* As fotos são minhas, podem ser copiadas livremente.


Sobre soliplass

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7 respostas a Oslo, 22 de Julho

  1. Muito bom, mesmo muito bom.

    A carta de Arendt que refere é um dos meus textos de eleição. Se me permite, apesar de não ser para aqui chamada, cito uma passagem que aprecio particularmente: «What confuses you is that my arguments and my approach are different from what you are used to; in other words, the trouble is that I am independent. By this I mean, on the one hand, that I do not belong to any organization and always speak only for myself, and on the other hand, that I have great confidence in Lessing’s selbstdenken, for which, I think, no ideology, no public opinion and no ‘convictions’ can ever be a substitute.»

  2. soliplass diz:

    Obrigado. De resto, cite sempre, as citações são sempre bem vindas. Li isso há tanto tempo que nem me lembrava dessa passagem.

    Lembro-me sim de ter sido essa falta de independência – ou «arrogância» para fazer julgamentos morais próprios – que ela criticou no Eichmman, também a respeito da sua participação e aceitação do que foi decidido na Conferência de Wansee: “Who was he to judge? Who was he “to have [his] own thoughts on this matter?”

  3. soliplass diz:

    Não faz completamente jus aos acontecimentos, mas é importante ir relembrando agora que a “poeira assentou”.

  4. soliplass diz:

    Obrigado. Especialmente se o elogio vem de quem fez disto (http://alicealfazema.blogs.sapo.pt/158197.html) um post tão bonito…

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