Viver e aprender

O primeiro navio em que parti zarpou de Cádis, as cores vivas da bandeira norueguesa serpeando à popa sobre a esteira de espuma revolta das hélices, num mar batido pelo sol de Junho. Viajámos de táxi de Lisboa por Elvas, estremadura abaixo, por Sevilha.

 Trouxe para o mar pouca bagagem; a parte mais importante, meia dúzia de livros infinitos. O Life of Johnson de Boswell, o Dom Quixote, o Dom Gibão, Terras do Demo. O mesmo Dom Gibão, o mesmo Life of Johnson em edição barata da Everyman’s Library, o mesmo Dom Quixote em edição barata CLASSICOS UNIVERSALES PLANETA (editado em Barcelona em 80) comprado numa loja de treco-larecos em Cádis, que ainda hoje me acompanham enquanto no mar. Não tinha sido escrita ainda uma outra biografia que tem sido para mim um outro livro infinito – a biografia de Hofmo de Jan Erik Vold. É um livro que não me canso de ler como não me canso de ler a obra da biografada. Como a de Johnson, como a daquele que por conjecturas verosímiles se deja entender que se llamaba Quejana, lanza en astillero, ardaga antigua, rocin flaco e galgo corredor, una ola de mas vaca que carnero, salpicon las más noches, duelos e quebrantos los sábados, lantejas los viernes…, ou como a biografia do Danúbio que – mais que os detalhes e episódios do biografado -, traz o infinito olhar do biógrafo. Ou do amante. Contaram-me os que retornaram no táxi, a carga que trouxe de volta e o contraste com as coisas leves que levei na ida. Uma carga de artefactos e utensílios valiosos a que não se lembraram sequer de perguntar se queriam ser “raptados” ou a quem pertenciam de direito. E que esqueceram já, vendidos entretanto sem relato ou crónica mareante. Não deixam, relato ou relatores, saudades de monta. É incessantemente pobre, e monótona, a finitude de unhar. Por causa desse episódio chamo às estantes lá de casa, de forma jocosa, «o meu ferramental».

Deu-me a vida mais sorte que juízo, e também a jurista que me atura. Desconfio que em parte me atura porque cozinho. Há um mês e pouco, fui dar com ela à conversa com o meu pai, enquanto eu cozinhava uma caldeirada a lenha. Ao sol no terraço, gato aos pés, discreteando como dois Boécios as suas consolações filosóficas. O homem simples, nascido agricultor, uma mente liberal que nunca me pressionou a estudar, ou a ter um tipo de vida em detrimento de outro. Nem nunca me censurou por estudar demais. E ela, a quem a prática da lei não estiolou o sentido de justiça ou a justa medida na relação com os outros. Lá em baixo, a caldeirada trepitava ronceirinha no fervilhar acertado com o achego ou retirada de mais tição menos tição. Gosta o pobre velho de me ver cozinhar a lenha…

Nesses preparos culinários ia pensando no tempo do meu primeiro emprego: capote pelos ombros, abrigado da cacimba às vezes pelo tronco de um pinheiro fazendo equilibrismos com a página de um livro para simultaneamente apanhar um pouco da luz da fogueira que ia cozendo uma sopa de toucinho e couves e feijões, e livrar a página de humidades. A minha mãe odiava esse trabalho rude de lenhador ou madeireiro, que me atirou para sempre para a ignominiosa vida de trabalhos braçais. Nunca se refez do trauma, apesar de me ver jeito na colher e mão no sal. Eu ria, pensando em Theodore Rosevelt e no A Book-Lover’s Holidays in the Open*:

Sometimes one wishes to read for the sake of contrast. To me Owen Wister is the writer I wish when I am hungry with the memories of lonely mountains, of vast sunny plains with seas of wind-rippled grass, of springing wild creatures, and lithe, sun-tanned men who ride with utter ease on ungroomed, half-broken horses. But when I lived much in cow camps I often carried a volume of Swinburne, as a kind of antiseptic to alkali dust, tepid, muddy water, frying-pan bread, sow-belly bacon, and the too-infrequent washing of sweat-drenched clothing.” (* 20 no excerto do link acima)

Cedo na vida se aprende em Portugal (e em outros bastos sítios) que nada é para levar a sério. Lembro-me, nesse primeiro emprego, do funcionário das finanças com dois empregos em part-time; chegava à tardinha no Golf verde e fechava-se com o empregador no escritório: de manhã cobrava impostos e à tarde ensinava a não serem cobrados. Por essa altura vinha um sujeito vizinho muito contente a abanar o rabo e a oferecer um emprego num banco, que o gerente da sucursal lhe tinha oferecido por sua vez. Era para mim. As vagas eram por concurso mas já ali estariam destinadas, como as manilhas e ases da bisca dos habilidosos. Deu-me um trabalhão sabotar os testes daquela esterqueira… Nem é bom falar de aquando da inspecção militar haver por lá certos exemplos de traga-sangue que tinham pago a oficiais para serem excluídos da incorporação. E disso falavam de peito inchado como se sobrinhos do rei. Mais tarde, pela vida fora, o que vi de clientelismos, favores, cunhas, jeitos, corrupções, se escritos davam quatro guerrasepazes em extensão.

Provavelmente vi sombras, coisa de que deveria andar avisado desde Platão. Esta senhora por exemplo, diz (e eu acredito) que tudo não passa de uma questão de percepções induzidas por más leituras. Optimista por natureza, vejo aqui, mais uma vez, uma oportunidade para aprender tudo de novo. Espero, no processo, não me esquecer de como se faz uma boa caldeirada, ou daquela boa técnica (quando os feijões são duros) de esmagar as leguminosas com o olho da machada sobre um tronco ou prancha. Cozem com outra induzida celeridade. A coisa é útil se o horizonte ameaça borrasca.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s