Contar dos que tombam

Se tivesse que salvar apenas um dos meus livros seria este, acima: Eu Quero Viver.

O autor foi encontrado numa pilha de corpos, levado em segredo a coberto da noite de volta à barraca pelos camaradas que o esconderam dos alemães. Estes tinham-no julgado sem vida. A foto no interior do livro:

Chegou ali, ainda assim, porque conseguiu roubar umas botas de um cadáver, numa marcha forçada de milhares (pereceram de fome ou baleados de 15 a 22 mil, calcula-se) de homens nos últimos meses da guerra. As botas:

Sobrevivente, recebeu um dos mais comoventes telegramas da História: «Bem vindo de volta à vida.» Tremia tanto ao recebê-lo que o despedaçou sem o conseguir ler. Os companheiros tiveram que juntar os pedaços. A mulher ao reencontrá-lo em Paris, e o telegrama que dela recebeu:

E as mesmas mãos que rasgaram o telegrama, assinaram o livro em 82: «Oslo, 1982, Cumprimento amistoso, Oscar Magnusson»

Perguntou a data: 8 de Maio de 1945. A última coisa de que se lembrava:

“[…] eu estava deitado numa carroça puxada a cavalos com destino a Cham na Baviera. Era o dia 24 de Abril. Então, devo provávelmente ter chegado aqui e ter estado inconsciente duas semana.

O fedor a excrementos, deitados em sequência, pálidos chocalhos de ossos de grandes olhos. Com apenas uma manta atirada por cima da sua abjecção.

Eu sou como eles. Eu, deitado aqui,  exalo um fedor como o deles.

Levanto os olhos para os homens de branco, percebo que são médicos americanos.

– Levem-me até ao sol, balbucio eu.

A voz emite uma ordem, desta vez não tão amigável. Enfermeiras alemãs levantam-me com desagrado estampado no rosto. Lavam o suor e as fezes de meses depois de disenteria prolongada. Vestem-me roupas limpas.

Resvalo novamente para o estado de inconsciente, mas acordo quando me levam de maca para fora da barraca e a pousam à luz do sol. Os olhos doem, tenho que voltar a face do sol.

Alguém me dá de comer e de beber. Nessa altura estou os com dois americanos. Deslocam a maca para debaixo de uma ginjeira florida.

– Deus adorado, imploro – Se é verdade que a Noruega foi libertada, deixa-me retornar a casa para todos os meus que adoro, não me podes deixar morrer agora. – E como se quisesse dar a Nosso Senhor uma razão lógica, acrescentei: Porque se eu morrer quem ficará para dar o testemunho àcerca dos que tombaram pelo caminho?*

Mas, vencido pelo desespero que o estado em que me encontro me provoca começo a chorar. Peso cerca de 39 kilos, pesava 80 quando a viagem começou. A coluna está fracturada em dois sítios, os músculos que sustentam o pescoço destruídos, o coração estourado. Tenho tifo, a bacia estalada, disenteria, dupla pneumonia. […]”

É esta a página, traduzida sem cuidados de maior:

Via hoje o post de uma blogger cujo blog li pela primeira vez. Conta das dificuldade de outrém, dos portugueses à sua volta; pede desculpa: “Estou irritada, perdoem o desabafo”. O Luís dedicou-lhe o segundo post da série De Antologia. Eu, que fui galardoado com o primeiro da série, à guisa de comentário ao seu post no Puro Acaso, dedico-lhe esta página de Magnusson – como forma de encorajamento – para que vá contando dos que entre nós vão penando na marcha diária.

Sobre soliplass

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6 respostas a Contar dos que tombam

  1. Soliplass, é por posts como este (e o da Isabel Lucas e outro que o Luís escreveu hoje) que vale a pena fazer parte da blogosfera. E, certamente, não se pode dar uso mais nobre às palavras do que «contar dos que tombam».

  2. soliplass diz:

    Concordo consigo. O que vivemos hoje é trágico, e num duplo sentido. Por um lado o sofrimento presente; por outro a desonra da memória dos que lutaram por direitos socias, erradicação da miséria, sociedades justas, primado do Direito na ordem interna dos Estados europeus. E acima de tudo, paz.

    Escrevi aí para trás sobre um ex-primeiro ministro que deu um famoso ciclo de conferências, num campo alemão. Dava a palestra aos colegas e ia matando piolhos ao mesmo tempo… foi um dos obreiros da moderna Noruega; talvez goste de ler esse episódio: aqui (https://ancorasenefelibatas.wordpress.com/2010/11/08/conferencia-de-piolhosos/)

  3. «[…] Trygve […] continuava a falar, projectando os seus companheiros num projecto futuro, afastando-os do pensamento omnipresente […] acerca de como enganar a fome.»

    Retalhei um pouco a frase — as minhas desculpas –, mas fi-lo para sublinhar que é isto que mais falta nos faz: um projecto futuro nos permita afastar o pensamento omnipresente — seja ele a fome, o desemprego, o emprego mal remunerado ou qualquer outro dos que abunda nos dias que correm — e alguém que nos projecte nele. Gostei muito do texto. Obrigado pela partilha.

  4. Que grande história, hombre. Você podia dedicar-se um bocadinho à tradução, precisamos tanto de coisas boas do norte da Europa. E este deve ser magnífico.

  5. soliplass diz:

    Essa não é bem a minha “guerra” caro Luis. Afinal sou um simples trabalhador braçal sem a necessária competência para traduzir. Por outro lado chego a estas coisas mais por vagabundagem de leitor voraz (em que o acidente ou a sorte levam a encontrar isto ou aquilo), não tenho ideia de quanto isto iria interessar ao grande público.

    É com efeito uma história admirável, a de Oscar Magnusson. A sua resistência à tortura para evitar denunciar uma rede de evasão na zona de Bergen de onde era natural, e depois a sua experiência de prisioneiro. Sempre achei comovente a forma como ele, entre a vida e a morte, achar como justificação aos olhos do Criador para continuar a viver a necessidade de testemunhar sobre a sorte dos outros.

    Creio que um dos grandes atractivos deste tipo de relatos (como o de Trygve Brateli, pedreiro de profissão à altura da captura) é que o fazem numa linguagem muito simples, sem grandes ornamentos retóricos. Este é um exemplo disso.

  6. Pingback: Entre Âncoras e nefelibatas | Âncoras e Nefelibatas

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