A cubicagem das bibliotecas

“A cubicagem do pau”, ou “a cubicagem de um pinhal”: ouvi as expressões milhentas vezes aos serradores velhos. Pode ser calculada a olho, atravessando um pedaço de floresta olhando cada árvore (a avaliação mais normal é pelo peso calculado, que posteriormente se transforma em unidades de volume) ou de uma peça ou conjunto de peças (ex., vigas) serradas, multiplicando as respectivas medidas de comprimento, largura, profundidade; apresentado depois o produto em metros cúbicos.

Ao telefonar para casa, ouço as pausas da voz da minha mulher. Já sei em que se ocupa. Trabalha num processo onde os interesses de uma criança qualquer – que não conhece ou viu sequer – são equacionados e defendidos. Quando a coisa é urgente, sem que receba um tostão a mais pelo trabalho, fica até tarde. Entretanto adormeci, fico sem saber a que horas acabou o parecer.

Morreu-nos o labrador adolescente. Levantou a cabeça pela última vez na clínica ao reconhecer o cheiro da mão da dona. Eram as últimas forças. Gostava-lhe dos chinelos pintalgados preto e branco. Logo no primeiro dia tentou a pilhagem como se fossem dele. Ela ria. Ouvia-os no quintal, ele rosnando e ela às gargalhadas, no jogo de perseguir pés e chinelos. Um dia destes ao ver onde haveria mais labradores à venda para lhe entrar em casa com mais um novelo peludo e rosnador, apanhou-me no computador. Falei-lhe de um criador na mesma cidade, de cachorros nascidos no dia anterior, viu as fotos, abriu-se-lhe o sorriso de orelha a orelha. Apalavrou-se um. Fomos vê-lo há duas semanas antes de eu ter viajado para o outro lado do mundo, guardo a imagem dela com o novo membro da família ao colo.

Agradecemos àquele sujeito simpático que encontrámos no fim de Janeiro em Marvão. Tinha um labrador adulto, que com ela contendeu e se viu agraciado com festas. Contou-nos o dono das tropelias e fidelidades do animal preto que tem que prender quando à beira-mar, porque o bruto não desiste de “salvar” a ele ou à restante família. Tínhamos saído de casa sem destino certo, rumo ao Alto Alentejo, passámos por Castelo de Vide e Marvão. Aquele sujeito benevolente, bom falador, cortês, é agulha num palheiro.

Sugeri que fôssemos até Cárceres onde pernoitaríamos para visitar a cidade no dia seguinte. Anoitecia, e, já em Espanha, sugeriu ela que voltássemos a casa. Mencionou um restaurante em Santarém para o jantar, já que tínhamos sido tão bem recebidos (três dias atrás) em iguarias e modos por parte do dono e do pessoal.

Concordei com o nariz torcido… é sexta-feira à noite, anda o pato-bravedo à solta a marcar território como os cães urinam nos candeeiros dos passeios públicos – parafraseando o outro, Friday night is foreign country; they do different things there – e entre nós tudo funciona por círculos, campanários, grupos e cardumes, capelas e arqui-potentados, segmentos, matilhas e sacristias, satélites de órbitra elíptica e repartições: com trinta porteiros ao postigo de cada curral.

Normalmente, se passamos a fronteira para Leste a coisa corre bem. Vamos conversando pelo caminho, vendo catedrais espanholas, castelos franceses. No início de Setembro saímos para ir a Salamanca e acabámos no norte de Itália. Em S. Remo, onde descemos para jantar num restaurante à beira do pequeno porto, ainda não decididos se rumaríamos ao sul por Génova rumo a Florença, ou para norte, fomos bem tratados. Na Mondadori em Milão ou na livraria especializada em assuntos jurídicos numa rua nas traseiras ao Duomo onde procurou actualizações de doutrina do Direito da família, da criança e adolescente, fomos bem recebidos. Na esplanada da praça central de Toulouse o garçon desfez-se em desolées por não ter croissants e foi sugerindo alternativas. Em Outubro na livraria Ateneo da Calle Flórida em Buenos Aires, enquanto pedimos para embrulhar livros que trago de presente para os amigos, sorrisos e prontidão.

Os problemas adivinhados são em Santarém, umas cortiçadas que intitularam Capital da Liberdade. A mulher esbelta (e elegante de modos) com dez anos de universidades (eu só tenho oito) que sempre descobre um motivo para rir e sempre tem sobre o que falar, que escreve num teclado ao ritmo de disparo de uma gatling gun, fala com sotaque brasileiro. Caldo entornado! Infâmia! Apesar do dono do restaurante nos receber bem à porta, ou porque o nosso comportamento é civilizado ou porque não olhamos muito aos preços e repetimos sobremesas e pratos quando a vontade assim o dita.

Destilando fuligens e vinagres interiores, rosnando cochicharias, uma madame, matrona de família, rodeada de mal-educados que vão comentando o futebol que passa nos ecrãs. Vem acompanhada de marido que ostensivamente a ignora em público, enquanto vai deitando o rabo do olho a umbigos de adolescentes e quadris de graúdas, rodando os cubinhos de gelo no uíske. A madame vai despindo a minha mulher. Apanha-lhe o sotaque, o à-vontade, apanha-nos aos dois as roupas sem padrão ou etiqueta de preço que possa calcular, calçado confortável. E não gosta. Com uns garranchos azedos afixados na tromba vai reprovando em olhares. Tira medidas, faz cálculos. It’s a walking calculation… como disse Lord Byron da outra.

Fica o jantar estragado, com aqueles grafittis borrados a olho em parede alheia, no tempo que é nosso, não dos outros. Se é o dono do restaurante que me tem mostrado um sinal de desagrado pela nossa presença, aceitava sem reservas. Casa sua, define que clientela que procura. Investiu ali dinheiro, levanta-se cedo e deita-se tarde, tem salários a pagar. O caso é ao contrário: são alguns clientes que lhe vão mandar no que é legitimamente seu, fazendo daquilo “sala de estar”, sem pejos de consciência nem elegância. Capital da Liberdade: se estercos comportamentais daqueles andam na capital, imagine-se então o que lhe vai pelas províncias…

J. Rentes de Carvalho tem um conto fabuloso intitulado Um Mau Hábito, publicado no seu livro Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia. A acção começa no 1º de Dezembro no Porto, ele membro da Mocidade a assistir perfilado a um palanque de ridículos dos dignatários do regime. Para aguentar aquilo vai despindo gente na imaginação. Acaba em Jeremoabo, uma década mais tarde a assistir a uma cerimónia do género. Deslocou-se lá “quatrocentos quilómetros a norte da Bahia, cu-do-mundo na margem de um rio triste, o Vaza-Barris”, para entrevistar o Coronel José Rufino, antigo perseguidor de cangaceiros. O coronel recebe-o mal, com modos hostis, diz-lhe que sobre os cangaceiros já foi escrito demais, mas lá vai falando. Até que finalmente o adverte que não gostou de o ter visto a olhar a cerimónia com olhos de despir gente. E que noutra altura o teria ensinado a “olhar de outro jeito”. Despir dignatários e fardados como modo de resistência ao poder pode ser actividade (ainda que irresistível) perigosa. O poder também tem olhos que nos olham. No mais dos casos, bem afinados.

Farto de má-educação, de prepotências e de micro poderes que invadem a privacidade alheia, de incivilidade, de olhares que por todo o lado calculam a altura da posição social ou a cubicagem da conta bancária, evito restaurantes na berra, e as coisas do social. Ao contrário de tabernas, fica mal armar “cachaporra de criar bicho” – até ver quem é o último que se aguenta nas convicções. A mobília é dispendiosa e na maior parte dos casos o proprietário não teve culpas em semelhante cartório.

Acho que a única coisa que me diverte já – e que não vai contra os costumes da época nem nos leva a tribunal – é, não o despi-los (como Rentes de Carvalho no conto), mas cubicar-lhes o volume das bibliotecas lá de casa. Em vez da nudez de carnes – como a dos dignatários e coronéis – a nudez de paredes: de casa, da caixa encefálica, do coração. E mal podemos esperar pelo cão. Argos, será o nome, o que reconheceu Ulisses.

Sobre soliplass

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2 respostas a A cubicagem das bibliotecas

  1. José Morais diz:

    Boa tarde,
    Desta vez não resisto a um comentário, o que quase nunca faço, e apenas para lhe gabar a paciência a contenção.
    E já agora, belo nome para um cão, por acaso o mesmo do peludo cá de casa.

    José Morais

  2. soliplass diz:

    Não deveria ter estado a perder tempo com o assunto, que só o do cão o merece… mas.

    Gostamos do nome também. Era também o nome daquele “imortal” do conto de Borges, o pobre rapsodo, que finalmente falou.

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