Educação e civismo

Que me perdoe toda a restante boa gente que por aí escreve, mas o primeiro blog que abro a cada dia de actualização é o Tempo Contado de J. Rentes de Carvalho. Ontem, ao abri-lo e ler o que lá consta sobre uns “compatriotas” que voltam da Polónia, houve gargalhada da grossa.

Nunca me canso de ler o que escreve; pelo humanista que a prosa revela, pelo agradável da escrita, e pelo seu poder e finura de observação. Receio é que pelo o facto de ser eu um pobre diabo qualquer, sem obra ou estatuto que se veja, lhe resulte o elogio escasso.

Atacaram-no há tempos atrás, coisa de que deu notícia aqui e aqui, e só me surpreende que não o tenham feito mais cedo. No entanto, os motivos por que o atacaram deveriam ser exactamente os mesmos por que lhe deviam estar agradecidos. Ele tem deixado retratos e diagnósticos certeiros e ímpares da sociedade portuguesa. Imagino se os cavalheiros descritos, os do “Domingo passado, uns quilómetros antes de Bordéus…” lerão a ”linda figura” que ali fizeram…

O que ele descreve ali é mais que um fenómeno isolado, um episódio. É uma das contradições da sociedade portuguesa que leva a pensar num certo pessimismo institucional, como o que referiu Robert Putnam no seu clássico estudo do funcionamento da democracia italiana com todos os efeitos negativos das tradições de «incivismo» sulista.

Houve tempo em que se pensou que a frequência do ensino, a literacia, o diploma universitário mudaria grandemente o panorama das mentalidades e atitudes em Portugal. Houve até a «paixão pela educação» e sopunha-se que a malta se tornaria mais cosmopolita e tolerante, enfim, mais civilizada. Moita carrasco!

Não temos muito o costume entre nós de ler este tipo de coisas, mas como assisti à apresentação dos dados no Parlamento tinha curiosidade de ver como sairía a obra final. Coisa sumamente triste (não só os níveis de apoio às principais instituições políticas), algumas das revelações  deste excelente livro organizado por Freire e Viegas publicado em 2009: uns gráficos em que atitudes dos portugueses são comparadas por escalão de anos de escolaridade.

Avaliando as atitudes de cidadãos e deputados em relação à defesa do bem comum (isto é, à desejabilidade de cada vez menos condenados aos remos da galé – se usarmos os termos caros a Camus e por ele usados no célebre Discurso de Upsala) no capítulo 12 do livro acima, Deliberação Democrática: as atitudes dos deputados e dos cidadãos da autoria de Leite Viegas e Sandra de Carvalho, (pp.415-46), avalia-se a “defesa do bem comum” através da pergunta: «na deliberação política, os intervenientes podem defender as suas propostas tendo em conta os seus próprios interesses ou defender essas propostas em termos da sua contribuição para o bem comum. De qual destas perspectivas se sente mais próximo?»

O gráfico, que aparece na p. 432, mostra-nos um conjunto de quatro barras que representam as posições dos cidadãos portugueses quanto à defesa do bem comum divididos em quatro níveis de escolaridade: 4º ano, 9º ano, 12º ano, e universitário. De relance, as barras parecem iguais. Mas os números que encimam as barras não o são, apesar da variação ser pequena (5,964 – 6,103 – 5,761 – 5,762, respectivamente). Ou seja, quando seria de prever o contrário em qualquer sociedade civilizada, os tipos com a “quarta classe” conseguem estar mais preocupados com a defesa do bem comum que a malta das universidades.

Já o gráfico da página 428 também é elucidativo: mede o respeito e consideração pelas posições dos outros. Aí as quatro barras aparecem novamente quase iguais, mas desta vez os universitários conseguem ter mais respeito pelas posições dos outros que a canalha com a “quarta classe”. Enquanto estes demonstram respeito e consideração apenas de 6,2464 os universitários demonstram um elevadíssimo 6,2584, ou seja, começa a notar-se uma pequena diferença à segunda casa decimal. A escala em que isto foi medido, vai de 1 a 10. Se fosse a escala de 1 a 100, não se notava diferença nenhuma, eram exactamente iguais os valores. Se fosse de 1 a 1000, os universitários bateriam os «grunhos ignaros» só com a quarta classe por uma unidade: 625 contra 624.

E a isto se chama (para que não nos chamem ressabiados e sediciosos) um panorama radioso. O que J. Rentes de Carvalho detecta ali em poucos minutos e descreve assim magistralmente num post de ironia deliciosa e linguagem “naturalista”, é afinal  similar ao que a análise das respostas aos inquéritos  aos portugueses (ou  a uma amostra representativa da população) no artigo de Viegas e Carvalho e aqueles curiosos gráficos revelam. É apenas menos “quantificado”, não menos representativo ou revelador.

Sobre soliplass

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