Amostras, arenas e comediantes

C. T. Godsell num artigo na British Journal of Political Science, (1988), defendeu que os edifícios parlamentares (citando a frase de Churchlill: “We shape buildings, and afterwards our buildings shape us”) preservam os valores políticos, articulam as atitudes políticas contemporâneas e contribuem para a formação da nossa cultura política. A forma de disposição de lugares opostos, ao estilo de Westeminster, convidaria ao confronto governo/oposição, a disposição (como a do nosso parlamento) semicircular em que os partidos se sentam da esquerda à direita, ao debate ideológico. Nesta linha de raciocínio, Hilmar Rommetvedt* defende a possibilidade de a disposição de lugares, única no mundo, do Storting – em que os deputados se sentam aos pares numa zona demarcada que corresponde ao círculo eleitoral por que foram eleitos – contribuir para uma socialização informal, reduzindo, dessa forma, a tensão ( frequentemente ditada por diferenças ideológicas) ente os mesmos deputados . Rommetvedt sugere que esta comunicação ditada pela proximidade física pode reduzir os conflitos ente os partidos e reforçar a cooperação entre representantes do mesmo círculo ao arrepio das clivagens partidárias.

Às vezes penso neste caso da arquitectura das arenas políticas a respeito das nossas telenovelas que de manhã à noite passam nas televisões. De forma gratuita, é claro. Coisa sumamente de estranhar (o serem gratuitas) já que João César das Neves nos ensina que não há almoços grátis. Há uns dias atrás, entretido em casa em afazeres domésticos, deixo a televisão ligada. Na SIC (pelas três da tarde), a novela Perfeito Coração. Vou ouvindo o som dos diálogos sem olhar para as imagens. Aquilo mete nojo… aquilo é um dos nossos edifícios que prescrevem (e descrevem) a forma de socialização portuguesa. E como os edifícios de Godsel ou de Rommetvedt, têm implicações políticas.

Vou buscar à estante em jeito de tira-dúvidas, os Comediantes de Greene. Nos Comediantes, escreve Graham Greene na introdução, que qualquer novela que tenha a Inglaterra como palco, e desde que tenha mais de dez personagens, lhe falta verossimilhança se um deles não for católico. Greene, advoga aqui que a literatura novelística observe os dados que a estatística social revela, sob pena de a obra de ficção resultar tingida de ridículo:

Observando (ainda que de ouvido) as telenovelas portuguesas, um marciano poderia concluir que para cada dez portugueses temos:

– Um doutor de barba de três dias, residente na Linha, dono (ou qualquer coisa) de uma empresa.

– Dois telemóveis de última geração que o doutor pousa na mesinha de entrada junto com as chaves ao chegar a casa esfarrapado de tanta labuta.

– Três criadas de uniforme preto, touca e avental brancos, uma delas intriguista e a outra um anjo, com uma velha cordata no papel de Conselho de Segurança da ONU, pra que não se esfolem vivas. Mas devotadíssimas todas três ao doutor e família.

– Quatro meninos, entremeados de género, louros, sempre em uniforme do colégio.

– O espectro da falecida esposa do doutor (que este não consegue esquecer) mãe das crianças enquanto na flor da vida – que lhe foi ceifada por tragédia – e que traz o doutror amargurado há trinta e dois anos, arquitecta genial.

– Uma jornalista, cirurgiã, ou designer (à escolha) apaixonadíssima pelo doutor e que promete reanimá-lo para as alegrias da vida, fazendo-o rescuscitar e ascender ao paraíso da vida caseira e social. Veste (quando não de serviço) casual, mas a gente logo ao primeiro episódio adivinha que despida não haveria de ser naco que se atirasse aos rothwaillers que guardam o quintal.

– Uma megera escalavrada (intriguista e de maus fígados) que só para estragar a vida ao doutor, às crianças e ainda mais às criadas, compete com a supracitada pelo matrimónio com o doutor adónis e pelo arrebanhamento das crianças que a odeiam.

– Um sujeito careca e mal apessoado, também executivo, que, lá na empresa, cozinha em fogo lento os perigos e armadilhas  em que o doutor incorre (leia-se, cair na pobreza) se não o desmascarar a breve trecho.

– Um velho casal de caseiros que na herdade ou quinta de família do doutor, o recebem, e às meninas e à pretendente boa, com desvelos e tirar de boné. E por todos eles, que lhes chegam vindos da Linha em SUV topo de gama ao final da semana, morrem de ralações.

Ninguém caga, ninguém deixa apodrecer os dentes, ninguém tem dívidas (a não ser astronómicas e essas são pergaminhos), ninguém é bate-chapas, revisor da CP, velha de bigode e a cheirar a urina com xaile preto p’la cabeça. Nenhum carro precisa de mudar amortecedores ou anda sem seguro, ninguém fica na maca no corredor das urgências toda a noite sem que ninguém lhe pergunte água-vai ou água-vem.

Não é de estranhar que um marciano que visse as telenovelas, ao chegar a portugal votasse em Cavaco, ou, se no círculo de Braga, em João de Deus Pinheiro. As telenovelas, como os edifícios de Godsel ou de Rommetvedt, são afinal fábricas de marcianos. Não admira que as televisões as passem de manhã à noite. O «regular funcionamento das instituições» precisa daquele esterco como de manteiga prás torradas.

Sobre soliplass

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8 respostas a Amostras, arenas e comediantes

  1. Pingback: O doutor e as sopeiras. « vida breve

  2. Pedro Martins diz:

    Curioso. Li ontem um artigo, não directamente relacionado, que contém uma frase que capta muito bem o espírito da coisa:

    “We have become a society that can’t self-correct, that can’t address its obvious problems, that can’t pull out of its nosedive. And so to our list of disasters let us add this fourth entry: we have entered an age of folly that—for all our Facebooking and the twittling tweedle-dee-tweets of the twitterati—we can’t wake up from.”

    http://thebaffler.com/notebook/2012/03/too_smart_to_fail

  3. soliplass diz:

    Pois …Parece (apesar de cada vez mais informação disponível) que não temos a capacidade de representar o mundo que vemos à frente do nariz. E tudo isto lembra também aquela trágica frase de Arendt que caracterizava o mundo totalitário no Origins:
    “…a lying world of consistency wich is more adquate to the needs of the human mind than reality itself, in wich, through sheer imagination, uprooted masses can feel at home”

    Grato pela visita.

  4. Panurgo diz:

    E votaria bem, esse marciano. Porque, depois da novela, certamente que olharia esta notícia:

    http://www.tvi.iol.pt/noticia/economia/edp-salarios-aumentos-agencia-financeira/noticia/geral/edp-mexia-china-three-gorges-three-gorges-pequim-agencia-financeira/noticia/geral/edp-chefia-gestores-gestao-da-edp-ordenados-agencia-financeira/1333825-5238.html

    e ainda era capaz de se perguntar como é que num país tão próspero, o doutor anda de SUV.

  5. soliplass diz:

    São uns beneméritos esses mexias. Lâmpadas ao fundo do túnel, exemplos. E fazem girar a economia. A própria, pelo menos.

    Mas tá tudo bem, que amanhã o César das Neves escreve mais um artigo contra as poucas vergonhas do sexo não procriativo, do uso da borracha, do excesso de líbido & etc… e da existência do salário mínimo, que é um instrumento de belzebu. Já reparou que se não existisse o salário mínimo não se podia fazer a comparação da notícia, os tais doze mil salários mínimos? Era menos uma notícia desgraçosa.

  6. Panurgo diz:

    Eu não desgosto do César das Neves. Não o acho mau tipo. Mas realmente às vezes lembra-me aquela frase (bastante injusta e incompreensível, mas mesmo assim com graça) do Russell sobre o Santo Agostinho, na historieta da filosofia que ele fez, qualquer coisa como “enquanto Roma caía, o seu pensador mais brilhante andava preocupado com sexo”. Qualquer coisa assim, que me roubaram o livro e não o voltei a comprar.

  7. Pingback: Reblogando | Âncoras e Nefelibatas

  8. sunscreen korea diz:

    Thanks for finally writing about >Amostras, arenas e comediantes | Âncoras e Nefelibatas <Loved it!

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