Vilhelm Moberg – mar de feno

Fazendo há quatro semanas atrás com a minha mulher – a caminho da cerimónia de crisma de uma sobrinha – os quinhentos ou seiscentos quilómetros até ao sudoeste do Paraná, junto à fronteira argentina. A amiga de juventude que não encontrava há anos levou-nos a ver o seu sítio com o ancoradouro junto ao que se denomina o «alagado do Iguaçu» uma zona extensa ocupada pelas águas da barragem, junto a S. Jorge d’Oeste, perto da cidade de Dois Vizinhos.

É uma visão algo estranha para um europeu do sul, centenas de quilómetros de terra fértil. Enquanto conduzo vou relembrando relatos que ouço à minha sogra e à minha mulher (descendente de irlandeses e italianos) da vida outros tempos, e das distâncias de outros tempos. À minha mulher tenho-lhe ouvido contar os tempos de ser criança e de o «nono» avô italiano vir de longe, bolsos cheios de guloseimas, de ónibus. Do prazer que era rever o homem gentil que pelo caminho tinha que descer por vezes com os outros passageiros e (em caminhos de barro) ajudar a empurrar nas subidas. Chamam-se ainda a habitantes de zonas interiores do Paraná, por via desse barro de cor entre o ferroso e o rubro, «os pés vermelhos». Tão gentil era o «nono» que as crianças competiam pela bacia de lavar o pé. Assim era recebido e agraciado, os netos à sua volta com lavagem de pés.

Como deviam ter sido assombrosas as distâncias de outros tempos para os imigrantes europeus. Troquei umas palavras aí para trás com o autor do Ericeira Norte a respeito de um seu post antigo. Relembrei-lhe as quedas de Iguaçu, sobre as quais voltou a escrever um belíssimo post.

Desta vez, apenas nas margens do Iguaçu, não vi as quedas, mas imagens de quietude e fertilidade. E de distância. Que por sua vez podem ter algo de trágico e de abismal, de labiríntico. Lembrei-me de um capítulo de Os Imigrantes (Invandrana) de Moberg, o segundo livro (no total são quatro que Moberg sempre insistiu que devem ser lidos em conjunto como parte da mesma obra) do seu monumental romance Os Emigrantes, no qual se conta a saga de camponeses pobres emigrados da área de Smaland na suécia para os Estados Unidos, e do capítulo «Um mar de feno».

Vilhelm Moberg foi um dos chamados escritores proletários (proletärforfätare, que incluiem Jan Fridegård, Ivar Lo-Johansson e Moa Martinsson e que pela primeira vez faziam da vida dura das classes trabalhadoras matéria de literatura na Suécia) incensado pelo povo e odiado pelas elites – culturais, políticas, religiosas – do seu tempo. Ambos os seus pais eram os únicos irmãos que das respectivas famílias não tinham emigrado na grande vaga que levou um milhão e duzentas mil pessoas entre 1845 e 1930 a abandonar a Suécia. Menino pobre, os personagens de Os Emigrantes, descrevem também experiências dos seus familiares próximos e da miséria sofrida por eles naquele tempo opressivo de rigor religioso e diferenças socias vincadas. Essa sua experiência de menino pobre contou-a num relato biográfico tardio (de onde se destaca Där jag sprang barfotaLá, onde corri a pé descalço, primeira parte dos Relatos da Minha Vida) com o relato da frustração própria da vida de um jovem sedento de conhecer num meio onde os livros eram escassos e a educação muito básica e de difícil acesso.

 Noto frequentes visitas ao blog por causa do termo «gadanha»: tema de um post ou dois. Conta-nos Rachel Hewitt no Map of a Nation (relato de como foi feito o primeiro grande mapa da Grã-Bretanha (o Ordnance Survey) como William Roy começou a medir no verão de 1747 a distância de Fort Augustus a Inverness. Media o chão com a corrente de Gunther e com o perambulator. Moberg, vendo as distâncias da pradaria americana no Minnesota pelos olhos do seu personagem Karl Oscar Nilsson, (no capítulo VIII, 2º Vol., Camponeses num mar de feno –  Peasants in a sea of grass, na tradução inglesa) mede-as com o tempo que um homem poderia gadanhar, avançando sempre, e deixando atrás de si um corte e maranho em linha recta. Na versão inglesa:

Here blossomed a hay meadow, vast as a kingdom, yet here no cattle grazed. Here was hay to harvest in such abundance that all the barns in the world would not suffice to hold it; here a haymaker could go forth with his scythe and cut one straight swath, day after day, mile after mile; he could continue his straight swath the whole summer long, the meadow was so vast he need never turn. Here were blossoming fields and grazing lands, here abounded flowers and fodder. Here, spreading before them, the travelers saw a verdant ocean which they might have walked through dry-shod, which they might have traversed without a ship.”

É uma passagem central na saga de Os Emigrantes, reveladora do imenso trabalho investigação de Moberg para um século depois “se pôr na pele” dos seus personagens, pensar e sentir como eles o teriam feio ao ver o Novo Mundo um século atrás. Podemos ver ao ler o romance (e medir) a distância e a riqueza do novo mundo, pelos olhos de quem escapava à miséria europeia. A Småland, de onde Karl Oscar e Kristina (os personagens principais) eram originários era a mais pobre (ou miserável) da suécia de então, tal como o era Moberg. Todo esse passado de emigração e pobreza esteve presente afinal a sua experiência familiar, na sua infância de menino pobre.

No Cap XIX do segundo volume, intitulado A Carta para a Suécia, o personagem Karl Oskar Nilsson descreve a riqueza de árvores e a fertilidade da terra no vale onde finalmente se estabeleceram. Há a proximidade de um lago pródigo em peixe e uma grande variedade de árvores, e que delas construiu uma boa casa onde já nasceu um outro filho que ainda não baptizou porque há uma tão grande variedade de fés que não sabe ainda em qual, nem em qual tomar a comunhão por medo de ser a «fé errada». Há na carta um elogio da fartura do novo mundo, e do esbatimento das diferenças sociais, da liberdade. Moberg, escreve-a assim «na pele» do seu personagem (novamente, da versão inglesa):

 

No meu tempo de criança a brisa fazia ondular num ritmo hipnótico as ladeiras plantadas de cereal, e não era preciso muita fantasia para imaginar um dedo gigantesco a passar e repassar sobre elas, dando-lhes vida. O dedo de Deus.” A frase, escreve-a J. Rentes de Carvalho logo no primeiro capítulo do seu romance Ernestina, livro que reli uma vez mais, desta vez no voo, atravessando o Atlântico. Na imensa pradaria, Moberg (pelos olhos do seu personagem) atribui a acção simplesmente ao vento, descrevendo o mesmo ondular. Face à pradaria sem fim, os imigrantes sentem-se perdidos, até mesmo de Deus. Se algo lhes evoca a presença divina é um fogo na pradaria que os tolhe de medo, julgando que se aproximam do Juízo Final bíblico. Nada lhes dá um ponto de referência, árvore ou colina, caminhos. A experiência humana (como o trabalho da ceifa da passagem da gadanha) já não é capaz de medir o espaço. Nem mesmo uma cronologia cosmológica a que estavam habituados dos relatos religiosos. Ali, o próprio tempo parecia estar parado. Faltava, História. A passagem de Moberg:

Without a guide, a wanderer over these flat lands would be lost, swallowed up; how could he find his way when one mile was forever like another?

The peasants from the forest regions passed over the prairie and shrank from the land opening before their eyes in all its incomprehensible vastness. They desired nothing more than to till smooth, level ground, but this prairie was not what they wanted. There was something missing in this flat land: God has not finished His creation. […] Moreover, this grass sea was too immense; it frightened them. Anything stretching farther than what their eyes could see aroused fear, loneliness, a feeling of desolation. They feared the sea of grass because they were unable to see its end, and feared it in the same way they feared eternity.”

Em todo este belíssimo capítulo oscilamos também entre duas visões da experiência dos migrantes face ao Novo Mundo: a visão masculina e a feminina. Se a visão masculina é frequentemente a das possibilidades que a terra oferece e a liberdade dos contrangimentos das hierarquias sociais, a feminina é a de deslocação social, a perca de referências e tradições do país de origem, pelo que são as mulheres que normalmente melhor lutam para as preservar e não deixar cair no esquecimento, transmiti-las às gerações futuras. O capítulo acaba com a descrição dessa perca do Mundo Antigo a que tinham pertencido, e que parecia agora irreversível. Dá-nos uma noção do que teriam sentido os homens e mulheres daquele tempo face à vivência de uma distância que os meios de transporte modernos, os meios de comunicação, os efeitos da educação, alteraram. Viajando no sul do Brasil, até aos confins daquelas terras de fronteira, voltei a lembrar-me disto para compreender o que teriam sentido os primeiros colonos:

They were still travelling through night and day, travelling across this country which seemed to have no limit. And every moment drew them farther and farther from the land that have borne them. Their native village was now so far behind them that their thoughts could scarcely traverse the distance from the point on the earth where their journey began, to the place where they now were. They shuddered when they tried to comprehend the whole distance they had traveled across land and water. Trying to remember, they were unable to reach back – not even their imagination could undertake a return journey. The distance was too overwhelming; the earth which God had created was too large and too wide to fathom.”

A realization which their minds had long resisted became fixed in their hearts and souls: this road they could never travel again; they could never return. They could never see their homeland again.”

Sobre soliplass

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