Aplauso e inutilidade

Ao jantar, para que me convidou há três meses atrás, contava-me um amigo (ouvi a história pela primeira vez) da guerra que teve lá na empresa. Jovem engenheiro, primeiro emprego, tinha recusado administrar um curso de formação profissional – dos que foram típicos daquele tempo.

O curso decorreria nos moldes tradicionais: depois do almoço no refeitório dispunha-se a mobília face a uns quadros pendurados na parede, onde previamente estariam escritas as matérias lectivas. Na fábrica, instalar-se-iam umas campainhas que tocariam (em caso de inspecção) para que os operários viessem a correr sentar-se na mobília e olhar os quadros. Saiu. Mas o curso acabaria por decorrer nesses moldes. Foi um curso a cadeiras vazias, talvez as únicas dignas da matéria a leccionar.

Contava-me o melhor amigo o caso, de há vinte e tal anos atrás, e rememorando aquilo que eu próprio vivi nesse tempo cavaquistânico, pensava meditabundo que a gente recusava mas por própria conta e risco. Eu recusei em 1991 um suborno para comprar um lote de matéria-prima cuja importância (a do suborno oferecido) montava aproximadamente a um ano de salário. Enveredava-se por essa via pela solidão dos falhados. A sociedade reprovava-nos – o tempo não ia para fretes de ética nem para white-man’s-burdens’s sisifescos; quantas vezes, a própria família. Só uma linha ou outra de Camus, uns livros impressos em mau papel e escritos em tempos por teimosos já mortos e esquecidos, apelavam ao des-sucesso.

Os filhos, hoje, olham as mesadas mais curtas que o desejado, os pais requerem cuidados, e as escolhas de outrora continuam tão duvidosas e frágeis quanto o foram naquele tempo. Arrependidos? Uns dias sim, outros dias não. Até nisso do arrependimento é o caminho solitário. Encontram-se tão poucos arrependidos.

Tudo isto lembra (por feira de ursos) é claro, aquele bom reitor de Caldelas – o tal que pastoreava uma pobre freguesia há 32 anos e que levava vida sem nódoas – personagem de Camilo n’A Brasileira de Prazins. Pensou o pobre Reitor em contrariar a “arte de viver bem” com a retórica, para aplauso dos entendidos e inutilidade dos pecadores…

Sobre soliplass

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