Livros, sábios

Arredado destas coisas da bloga também por enfronhado em livros, só agora soube, por um blog que gosto de ler, que tinha sido dia do livro.

De tanto referenciar por aí livros e páginas, se não corro o risco de alguém me tomar por sábio (quem dera na nossa língua a límpida distinção francesa entre sage e savant), corro pelo menos o risco de passar por um nauseante imbecil. Daqueles que crêem que num livro se lê algo de mais profundo e essencial que o que o operador de uma grua lê na tensão de um cabo onde roda carga suspensa sobre a cabeça dos outros. Ou do que lê (de ouvido) no ranger da estrutura: a força do vento. Que num livro se lê mais ou melhor que aquilo que um motorista lê numa estrada nevada ao volante de quarenta toneladas montanha abaixo, mais importante e urgente que os sinais que o mestre da traineira lê na espuma da vaga a um quarto de milha à entrada da barra, através de vidro gotejado em mau tempo. Com a vida própria e a dos outros a seu cuidado presa por volta e meia de leme.

Ao descer há duas semanas e tal a Pomerode no Estado de Santa Catarina para ver as festividades de Páscoa de tradição alemã, já no final da descida da serra junto à divisória ou fronteira desse Estado com o Paraná, havia num retiro um autocarro totalmente destruido pelo fogo. Filigrana de ferragens retorcidas e calcinadas, impressiona. A visão de uma coisa daquele género dá uma imagem da fragilidade da vida humana. Afinal é naquilo que viajamos. Sobre-aquecimento de travões, curto-circuito? Não sei a causa do fogo. No jornal local de Pomerode que vimos na recepção do hotel a notícia era a de que não tinha morrido ninguém.

Parece que nesse mesmo dia, à subida da serra, um camionista de pesado deu de súbito numa paragem (assim ouvi o relato) pela falta de travões. E veio por ali abaixo de marcha-atrás, desviando-se dos que subiam, até parar por fim. O que fez foi irracional. Racional era procurar com o embate com os outros carros que subiam, diminuir a velocidade, salvar a vida ainda que a dos outros se perdesse. Conduzi alguns, sei que fazer uma coisa dessas, por muita a habilidade, (no caso de um articulado falamos em rigor de impossibilidade), é uma roleta russa de tambor cheio. O que o homem escreveu na estrada, vale mil obras de Balzac. Ou, quem quer que fosse subindo a serra atrás dele ao volante do automóvel, família ao lado talvez, trocaria todo o Balzac por aquilo que ele leu e escreveu na estrada. De improviso e sem revisor.

Outros, escrevem uma saga de silêncio. No caderno central Magasinet do jornal norueguês Dagblad na edição do último sábado, vem a saga de um carpinteiro que tentou um dia escapar para Suécia para de lá se juntar às forças aliadas e contribuir para libertar o seu país e a Europa. Não chegou à fronteira sueca. Foi capturado a 5 de Setembro de 42 em Halden. É o último dos sobreviventes noruegueses do campo de Majdanek. Quando ao pegar no filho pequeno ao colo era inquirido sobre o número tatuado no braço (190515) dizia-o um número de telefone. Nunca contou, nem à família nem aos amigos. Protegeu toda a gente do horror que tinha vivido. Só nos últimos anos tem falado. Quanto mais sei da história desta gente, mais  simples ou menos simples (especialmente a dos combatentes noruegueses, a que melhor conheço) mais me sobe a raiva ou o nojo à garganta dos destinos que foram dados aos fundos de coesão europeus na terra de onde venho. Olho a foto do braço tatuado, os números, e lembra-me aqueles 140,5% das acções não cotadas, penso em quem e onde o seu sacrifício foi aplicado…

De quando em vez é melhor meter umas curtas férias à bloga. Talvez seja o mais prudente. Terei a tentação permanente de fazer a apologia de livros, de que gosto: mas por serem a voz de gente. E gosto de apologias. Tanto, que tenho (espalhadas por aí) várias Apologías e Rechazos de Ernesto Sábato. Também uma que trago comigo no mar. Contém a apologia do seu antigo professor Henríquez Ureña. Sábato cita-lhe aí um credo de Patria de la justicia:

“no es ilusion la utopia, sino en crer que los ideales se realizan sobre la tierra sin esfuerzo e sin sacrificio. Hay que trabajar. Nuestro ideal no será la palabra de uno o dos o três ombres de genio, sino la cooperacion sostenida, llena de fe, de muchos, de innumerables hombres modestos.”

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s