Um pouco mais de azul

Paro frequentemente numa ladeira antes da aldeia onde nasci, e onde vivem os meus pais, a olhar a terra onde aprendi a lavrar (com junta de bois) aos oito anos pela mão do meu avô. Dá a dimensão de toda a riqueza e sorte que tive em comparação com os meus antepassados. Sei que isso é um pecado, e dos grandes: lembrar que se tratou com pobres, que se distingue uma cabra de um bode e que o último não é de ordenhas. Que se sabe lançar a canga numa junta de bois ou ferrar um macho de lavoura, até onde pode o formão desbastar o casco. Mas nem era ali o caso de haver pobreza. Só se sente verdadeiramente o aguilhão da pobreza onde há ricos e o desprezo que praticam. Torna-se um pecado capital quando reconhecemos na riqueza e sorte que tivemos toda aquela que faltou aos outros.

Quando a trinta quilómetros dali – vinte e tal anos depois – enrolei pela primeira vez uma térmica ao som de um variómetro, e chegado aos 950 metros pude ver a costa quase do Cabo da Roca à Figueira, armado apenas de 26 metros quadrados de vela uns fios, algum conhecimento e um analisador de pressão electrónico, foi como ter percorrido o tempo que vem da Idade Média à aterragem lunar. Ali, num país de mareantes, a quarenta quilómetros e poucos da costa, havia gente que morria sem ter visto o mar.

Escrevi aí para trás a crónica da primeira nuvem em que entrei de parapente. Na primeira térmica, enrolada a princípio sobre Minde, e pela inclinação da corrente ascendente, já do outro lado da encosta na direcção da Serra de Santo António, por volta das onze e meia da manhã (em contraste com a nuvem sobre Linhares uns meses depois) havia o brilho luminoso da manhã de Maio, uma imensidão de azul à volta, de que mal despegava os olhos, atento aos sinais da asa e à sua pressão interior. E no entanto, essa experiência única de um dia radioso em que mal cabia de contente dentro da pele ficou ensombrada e mantêm-se com um travo amargo.

Depois de muito “farejar” térmicas sem sucesso na encosta a Oeste (o variómetro só deu dois ou três apitos ténues sobre um moinho a sul de Covão do Feto, aterrei numa estrada onde por coincidência vinham dois guardas da GNR a pé. Mantivemos uma conversa breve enquanto dobrei a asa na estrada, um carro abrandou, deu-me boleia de regresso a Minde. Pousei a mochila do lado de fora do café nas imediações da praça, entrei para comprar água com que matar a sede. À saída, um homem franzino e baixo, a cara curtida de sol, aparentando ter passado os cinquenta, aproximou-se de mim e perguntou se era eu que lá andava no ar há bocado. Mostrava-se sinceramente interessado naquilo. Era eu, expliquei. «É pá vocemecê andava alto c’mó diabo, mal se via lá pr’aqueles ares acima»…que se fosse mais novo ainda gostava de experimentar em andar numa traquitana daquelas. Comoveu-me a o interesse sincero do homem.

Vi dezenas de vezes em tanto sítio do mundo gente a aterrar depois de um voo como passageiro de outro piloto. Admira-os a brandura com que pousam, sorriem, tremem alguns (ou algumas), mal falam de comoção. Vi gente que leva o cão, a sogra, os filhos, desconhecidos velhos e novos, por paga ou gratuitamente. Gritei a alguns ao passar perto deles no ar numa alegria partilhada, vi-lhes expressões no rosto que provavelmente nunca verão a si próprios num espelho, ouvi gritos de volta, gente velha com sorriso de criança a gritar a plenos pulmões e a sacudir as mãos por a voz não chegar. Atrás deles, o piloto a sorrir de os sentir assim e saber que em parte essa alegria é obra sua. Vi o olhar de espanto e o sorriso rasgado de um agente da GNR, tirando o boné por reflexo, quando um lhe aterrou no jipe, junto à fonte lá em cima, num dos Opens Linhares. Não aterrou, pousou os pés. E que com uma travagem suave voltou a descolar de lá, seguiu.

Vi tudo isso e levei naquele dia a curiosidade e o interesse do homem a sério. Perguntou um rol de coisas, a que fui dando explicações breves, e também porque é que se sobe assim, «bom, isso há-de ser dos ventos ou o catano…». Era, era dos ventos. E do calor do ar em certas partes. O ar quente sobe, como as bolhas das panelas em fervura. Que mais devagar. «E a gente conhece o vento com isto.» Tirei o variómetro da cadeira, liguei-o, levei-o ao chão e ergui-o na mão, para lhe explicar que aquele instrumento nos dizia com aquele apito onde está o ar que sobe. Com um certo atraso. «Reparou que apita um pouco depois de ter começado a subir?» O homem estava nas sete-quintas. Contente de lhe darem atenção, de lhe explicarem um pouco daquilo. E ia desabafando à sua moda «e c’a porra! Bom!… coisas modernas, que já não são do meu tempo!», rindo-se como que se pedindo desculpa por ter nascido cedo demais. E essa foi a parte boa da conversa.

Encostado à parede, uma perna flectida, cruz de ouro sobre a lã do peito que era mais ou menos da largura de o de um tordo, a camisa aberta, um playboy da Loja dos Trezentos com ar de filho de gente graúda, já abeirado dos quarenta, ria-se desdenhoso do outro. Meteu-se no diálogo, escarninho, desdenhando o interesse do pobre homem e do seu atraso e singeleza. Queria-o no chão, agarrado à enxada, ou enfiado numa fábrica agarrado a uma máquina. Em voos é que não, para não fazer sombra cá para baixo.

Ainda lhe disse duas ou três “à má-cara” a provocá-lo – como a de que também iria gostar da experiência do voo se pudesse experimentar: isto é, na condição de lhe poder comprar o pai um pouco mais de miolos e um bom par de colhões. Não se saiu o “paninho de armar” mais com réplicas, e fez bem. Já lhe tinha talhado a receita, e, tal a sede que lhe ganhei, ao primeiro pombo sem asas que lhe assentasse na bigorna apagava-lhe a luz o resto da tarde. Tinha sesta descansada. Lá me despedi do homem mas ao volante do jipe de regresso a casa roguei pragas todo o caminho.

Não adianta meter na cabeça de certos matarruanos a inutilidade de tentarem cercear aos outros o acesso a duas coisas básicas: o acesso à beleza do mundo e a satisfazer a curiosidade. Não adianta, porque é isso que nos faz homens. Ou mulheres. Não adianta ao parvo que estava a chatear o homem nem adianta a ninguém. Pode conseguir que lá não chegue aquele ao cimo de uma térmica. Mas chega lá outro. E vai transmiti-lo na medida em que puder aos que lá não puderam chegar, como os que fizeram o vídeo do voo nos Dolomites. Não entendia o matarruano que o homem que ele não queria que lá chegasse, já lá andava ao ver-me quando mal me via pr’aqueles ares acima; que tanto me sustentou o seu sonho como o ar quente. Não era só eu que lá andava, eram todos os sonhos de homens como aquele, que pressentem ou têm a intuição que a coisa há-de valer a pena ainda que a não tenham experimentado. Foram homens como ele que em França ou na Suíça andaram quilómetros e quilómetros de madrugada montanha acima para com os velhos pára-quedas direccionais (os famosos sept caissons) fazerem uma descida de minutos. Foram todos os outros que desenvolveram os materiais, o design, que aproveitaram a electrónica para fazer um variómetro. E que eu ali de joelhos ou a mexer no material só lhe estava a devolver uma parte do que me levou lá; o desejo humano de superar limites; que é feito da mesma massa e do mesmo fermento do seu; igual ao de tantos outros.

Apesar desse passo inesquecível na vida que quem pratica ou praticou voo livre (a subida da primeira térmica), recordo aquela manhã com azedume, ou desgosto. Aqui há tempos ao ler o post Irei sem Perdoar de J. Rentes de Carvalho, especialmente as frases finais “O país da suavidade, do desespero, dos sonhos infantis, das mãos pobres que um nada enche, do sofrimento envergonhado e amanhãs que nunca chegam. Irei sem perdoar aos que o rebaixam.” voltei a lembrar aquilo. É uma das coisas difíceis de perdoar. Uma das tantas coisas que com o passar dos anos me fizeram estrangeiro na terra onde nasci. Estrangeiro em face da maldade e mesquinharias inúteis. Ao contrário de tanta gente, não vejo na presente crise uma crise de recursos; vejo a crise de sempre: de partilha, de humanidade, de azul.

Sobre soliplass

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5 respostas a Um pouco mais de azul

  1. soliplass diz:

    Obrigado pelo comentário. Aquele momento de há tantos anos ainda hoje me causa desgosto. A forma como aquele tipo estava a cercear a vontade de satisfazer a curiosidade do pobre homem. Nem sei como me segurei sem armar ali serrabulho do grosso. Viu o vídeo dos Dolomites? Não é algo que dá vontade de partilhar?

    De Irene Lisboa ou Luísa Dacosta (falta minha) nunca li nada, confesso. De Rentes de Carvalho li o que se publicou mais recentemente em Portugal. E aquele blog, que foi uma das melhores coisas (quanto a mim) que apareceu na vida pública portuguesa: iluminado e humano. E de uma juventude de fazer inveja. É sempre o primeiro que abro a cada dia.

  2. Areia às Ondas diz:

    “… vi-lhes expressões no rosto que provavelmente nunca verão a si próprios num espelho…”. Adorei o texto todo, mas esta expressão… é magnífica. Parece-me um dar puro, um dar o melhor que se tem, um dar genuíno. Só o autor deste blog para assim escrever, tanto e tão profundo, em tão poucas palavras. 🙂

  3. soliplass diz:

    mas isso é verdade sabes? Há gente que literalmente “explode” de alegria com a experiência. É algo bonito de ver ao passarmos perto. Especialmente com a gente de mais idade, que parece que perde uma dezena ou duas de anos.

  4. Fizeste anos… grande, grande abraço. Vá, e um beijinho 🙂

  5. Parabéns, saúde, alegria e discernimento.
    Excelente texto. Sendo que há gente e gentinha. Compreendo, especialmente, a última frase, um pouco dolorosa de ler para quem no seu dia-a-dia se confronta com situações desse tipo.

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