Dalton Trevisan e um conto

Utilizei no post abaixo o termo «gnómon» para designar o juizado. No artigo que a Wikipedia dedica ao termo, aparece uma foto deste relógio solar (gnómon é o estilete que projecta a sombra) na fachada de um edifício na Praça Tiradentes em Curitiba. Era assim, hoje de manhã. A praça Tiradentes, abaixo, com a estátua do dito.

Nas voltas pela cidade, acompanham-me, naturalmente, algumas das personagens inesquecíveis dos contos de Dalton Travisan. Cheguei à sua obra por acaso, há um par de anos. Impressionou-me principalmente a velocidade e eficácia da sua escrita. Rápidamente minha geografia da cidade se me povoou dos seus personagens, das suas frases. Um pouco como o rio Belém, que a atravessa, em parte de forma subterrânea, coisa a que até dedicaram um blog.

A atarefada XV,

Será aquela lá ao fundo a igreja do conto A Noite da Paixão de O Vampiro de Curitiba? …junto à «praçacinha do bebedouro antigo» onde Nelsinho (sexta-feira de Paixão) tem aquele curioso pensamento ou invectiva  «Por tua culpa, Senhor, todos os bordéis fechados.»?

O café do Paço, onde me vou sentando de volta com estes velhos alfarrábios, sei que um amigo aprecia J. Rentes de Carvalho, e só porque ele o aconselhou, penso que gostará disto, comprado a preço irrisório, mas com a patine do tempo (e do lugar)…

É um dos contos que mais gosto, e a juntar aos que o Henrique Fialho publicou aqui e aqui no Antologia do Esquecimento, cá fica, uma espécie de naufrágio num rio símbolo da cidade, publicado originalmente em Novelas Nada Exemplares (Editora Civilização Brasileira S.A. Rio de Janeiro, 1965):

“Pensão Nápoles

Desde que aportou em Curitiba, Chico vivera às margens do Rio Belém e queixava-se de que tinha as unhas sujas de seu barro amarelo. Para ser feliz deveria, em menino, ter pescado um lambari de rabo vermelho. Sonhava então em fugir para outra cidade – ah, Nápoles!

Auxiliar de escritório, noivo, de bigodinho, morou em tôdas as pensões: Primavera, Floriano, Bagdá. Definhava ora na sórdida espelunca de nome pomposo, ora na salinha escura do escritório, onde espirrava entre o pó dos papéis. A eterna promessa era de aumentarem-lhe o salário no ano seguinte – não podia esperar mais um ano. Distraía-se perseguindo o vôo das môscas, contava as rugas da testa do gerente, errava nas contas e, ao receber a correspondência, perguntava ao carteiro:

 – Alguma carta de Nápoles?

Sabia o que era – o chamado das janelas. Em vez de partir, mudava de emprêgo, de noiva, de pensão. Respondia ao primeiro anúncio de – “Precisa-se de môço para lugar de futuro.” O Futuro era outra rua de Curitiba, com seus plátanos antigos na calçada, as solteironas à janela, o Rio Belém dos quintais miseráveis e os piás atrás dos lambaris de rabo vermelho.

A salvação era casar, transferir-se para o outro lado da cidade, lá onde a água do rio não chegasse – com as chuvas, alagava os quintais, cobria de lama os sapatos e os sapos coaxavam dentro da cozinha. Irrompia, sem aviso, rio de nascente oculta, sob os pés dos amantes distraídos. A prefeitura ignorava-lhe o curso subterrâneo; rio de pobre, não fôra o Belém, com que água as mães dariam nos piás o banho do sábado?

Aos trinta anos, magrinho, de bigode bem prêto, Chico fugia do rio. Era môço triste. Naufragara com seus trastes na Pensão Nápoles, não a escolhera pelo nome. Fôra condenado às pensões baratas que margeiam o rio, partilhando o quarto com estranhos. Consumira-lhe as economias o tifo prêto do Rio Belém e agora perdera o emprêgo. Diante de uma janela, o vento da viagem arrepiava-lhe os cabelos do peito magro.

– Imagine o que na minha idade Alexandre Magno havia feito! – dizia ao colega de quarto.

O outro olhava-o com espanto.

 – Se ao menos não fôsse o rio… – repetia, deitado em cuecas na cama, limpando sob as unhas uma sombra de barro.

Com o tifo até a noiva perdera, êle que fôra sempre noivo! Não conseguia dispensar uma noiva na sua solidão. Após breve namôro, entrava na sala, elogiava o café com rosquinhas. Já podia então almoçar com vinho aos domingos. Tinha casa para se abrigar à noite, em vez de correr pelas ruas sob a garoa. Môço sem futuro, a noiva devolvia-lhe o anel.

Depois do tifo prêto foi a pneumonia. Nas tardes alucinadas de febre, Chico lembrava-se do pai. Homem severo, não admitia riso na sua presença. Quando fugiu de casa imaginou que o outro nem lhe desse pela falta. Nunca escreveu, informando seu enderêço, na ronda das pensões. Tarde demais, soube que o velho não deixara retirar sua cadeira da mesa. A mãe dispunha mais um prato, como se Chico viesse, todos aquêles anos, almoçar e jantar em casa. De noite, o pai subia ao quarto do rapaz, batendo na porta: “Chico, Chico, você voltou para casa, meu filho?”

Morreu de tristeza, antes que Chico visitasse a família. Agora sonhava com o pai, a escutar sua voz rouca de velho, ao lado da cama: “Chico, você veio pra casa, meu filho?” Êle (que matara o próprio pai) não fizera mal às sua noivas. Ah, as noivas de Chico! Não era volúvel, como elas o acusavam – a tôdas amou. Nem uma gostou dêle para entender que não queria ser enterrado com os pés no Rio Belém. Propunha que fugissem e se casassem noutra cidade. Qual das ingratas confiou no seu amor? À noite rondava-lhes as casas, tôdas dormiam, esquecidas dêle a errar na garoa fria.

Em junho a garoa é o céu de Curitiba. Sob a janela de uma das ex-noivas, havia começado a espirrar. A dona da Pensão Ali Babá não o quisera no quarto com aquela tosse. Escondido dos hóspedes, foi retirado de padiola para a enfermaria coletiva. Sobreviveu e aquecia-se ao raio de sol atrás da vidraça, fingindo não ver os serventes que abandonavam uma cama vazia no pátio – que significa um estrado sem colchão ao sol?

 Depois do tifo prêto e da pneumonia foi a vez da Pensão Nápoles. O nome não o deixava dormir.

– Vamos nos engajar como marinheiros no primeiro navio?

– Não tem mar, Chico, na tua Curitiba.

 Êle cuspia lá da janela, cuspia sangue contra o rio.”

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s