Moralismos

Ao andar ontem pelas ruas de Curitiba, a mulher cega que toca viola, voz roufenha, canções que ninguém escuta por inteiro, caixa vermelha de sapatos (Nike) aos pés, presente de alguém? …caixa de esmola improvisada? Encontro-a mais na outra cidadezinha de subúrbios onde moramos.

Indo em compras ocasionais, a sogra pelo braço lá se desculpa, e vai. Vai até ela e fala-lhe para que se reconheçam por voz, ao dar a esmola. E desculpa-se-me pela interrupção. Vejo ali um extracto de boa filosofia «sogral», que evoca a célebre página Unamuno de Del Sentimiento:

Aprendia ontem com o cavalheiro argentino do distinto Sebo Osório, pessoa de fino trato e boas maneiras, que vai fechar o espaço físico, e ficar só com venda on-line. É pena, porque ali me habituei a procurar e a ser bem recebido. Lembro um outro dia, 26 de Novembro de 2009, em que lá encontei um livro procurado havia muito. O livro no qual Aragon defendia naquele tempo que deviam ser confiscadas à Alemanha todas as obras de arte de origem francesa. Trata-se do L’Ensaigne de Gersaint. Ali se argumenta que, depois das atrocidades das tropas invasoras alemãs sobre a população francesa, a Alemanha não tem o direito de reter nenhuma dessas obras, fruto do espírito e génio franceses. Lendo meu exemplar nº 4092  de uma edição de cinco mil, impressa na Suíça em 1946 pela Ides et Calendes,  dei com aquele trecho que fala do prisioneiro do Stalag IX A, André Maurel. Aragon justificava a confiscação de todas as obras de arte francesas à Alemanha também com o relato de um seu compatriota que inveja, e se compara aos animais. Nestes termos, e no texto em itálico das fotos abaixo:

Lembro-me do dia e do momento exacto em que lia a passagem no autocarro. Folheando o tesouro, vi sair de uma das lojas que bordejam a estação rodoviária uma mulher que deu um saco contendo o que me pareceram de longe alimentos a um “andarilho” – na expressão local –, um “sem-abrigo” entre nós. O homem abriu o saco, olhou e agradeceu. Pensei, que era uma forma de esmola, não em dinheiro, mas em género, e vultuosa porque fez duas ou três vénias demoradas e olhou a mulher sorridente e franco, um olhar que me pareceu desagrilhoado de vergonha ou subjugação. Tirei a máquina rapidamente e disparei a foto mal focada, em busca do rosto da mulher que se afasta já da “cena do crime” depois de ter sorrido brevemente enquanto o andarilho se dirige ao seu canto, no passeio e por detrás do táxi parado. Momentos depois, num canto uma outra mulher sentada junto ao carrinho de supermercado onde pareciam amontoar-se as alfaias da arte de ter pouco, olha o saco pousado no chão e inspecciona enquanto ele arruma ou verifica. Depois ele lança-se à comida, ela mordisca uma maçã, os dois absortos, fico com a impressão que têm aquela primeira sensação de êxtase com o sabor da comida. Atrás do táxis homem olha o saco. E aqui, finalmente, a comida ou os passantes:

Tudo isto são, é claro, fotos e páginas de moralismos ingénuos. Agradariam, se tanto, quando citados os textos numa tese académica, talvez comovessem (especialmente esta última) um André Maurel, um Chalamov, um Primo Levi, ou um Soljenitsine. Talvez Vernon Watkins, o tal que Thomas, o Dylan, disse ser melhor poeta que ele próprio. O do poema Fidelities, por exemplo, se o verso foi sentido.

[…] I was concerned with those the world forgot,

In the tale’s ending I saw it’s life begun;

I was with them still when time was not.

Para a maior parte de nós, há algo de estéticamente repugnante nos moralismos, na comoção humana, na piedade, e nessas coisas e gentilezas da vida civil. Talvez até em guardar fotos assim. Coisas de simples… Aos estetas, e aos verdadeiros pensadores, estas coisas repugnam. É por isso que assim os vamos encontrando principalmente nas bacias do amazonas ou do Congo, lutando c’a onça, enrolados em surucucus, desbastando a murro ou a facão a crocodilagem. Se ocasionalmente os encontramos em poltrona, é por nosso governo e iluminação.

Sobre soliplass

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3 respostas a Moralismos

  1. A comoção humana nada tem de esteticamente repugnante. A capacidade de nos comovermos é que de mais humano temos.

  2. soliplass diz:

    Nem mais. Também penso (e vivo) assim. Conhecia esta passagem de Aragon?

  3. Não, não conhecia esta passagem de Aragon. Uma vez mais, estou grato pela partilha.

    (Há emoções que, por pudor ou por orgulho, correcta ou incorrectamente, escondo dos outros, mas a comoção, por norma, não é uma delas — até porque não o consigo fazer.)

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