Ladrar, vale a pena?

Logo pela manhã, lia no Abrupto esta sentença curta e certa de Pacheco Pereira:

A acusação é grave, é validada por mais de uma pessoa e aceite como boa pela direcção do Público, mas, quanto mais grave é, mais sólida terá que ser a prova, mesmo que só testemunhal. O resto, ou mesmo esta alegada chantagem, a ERC irá tornar tudo inócuo numa resolução vaga e inconclusiva, como a do “caso Rosa Mendes”. Na verdade, ninguém quer saber disto para nada. Não se come liberdade de expressão, nem se deposita num banco, nem dá para fazer cartas anónimas.

Bom modo de começar o dia. Ao ler ao Aftenposten, com as notícias do funeral de Gunnar Sønsteby um herói da resistência a quem já dediquei por aí alguns posts, dou com a foto dele junto ao modelo da estátua que lhe dedicaram, uma das mais bonitas de Oslo. No título da notícia, a sua fé indefectível na democracia.

É quase sempre junto a esta estátua o ponto de encontro com um amigo de anos, alfarrabista retirado, que me vai contando histórias da pandilha de resistentes de que Gunnar foi líder e símbolo. Sabe-as, em parte, porque o seu pai foi companheiro da mesma luta. Homem bem documentado cuja livraria foi por décadas frequentada por gente deste cariz, vem de vez em quando com coisas que sinto algum pudor em aceitar. Primeiras edições, às vezes coisas que procuro e não encontro, mas que ele sempre desencanta do seu acervo que resta ou do de outros que conhece.

Há coisa de um mês atrás num encontro na Casa da Literatura em Oslo, veio presentear-me, dedicado pelo seu punho, com o livro mais famoso do seu pai Åke Fen: Nazis in Norway. Também com uma outra raridade de um outro resistente a quem Hamsun chamava por escrito em 1935 «denne skitne Ragnar Vold» esse merdas, ou esse sujo…

A sujidade de Ragnar consistia principalmente em ter escrito no Dagbladet toda uma série de artigos onde se fizeram desde cedo as mais duras críticas ao regime de Hitler, artigos agora coligidos pelo filho, o poeta Jan Erik Vold, em Motstand . São artigos fabulosos pela clarividência sobre a natureza do regime nazi. Vold, era, nos anos trinta, correspondente de imprensa na Alemanha.

Tudo aquilo que se cozinhava na Alemanha nos anos trinta veio a caír em cima de Åke Fen, pai do meu amigo, e autor deste Nazis in Norway, livrinho da Penguin a dar mostras da penúria da época, agrafado, em mau papel, várias páginas finais patrocinadas por publicidade, como é o caso do anúncio da Mars, ao lado da pequena nota sobre o autor, que convido a ler. Este homem, sem estudos superiores, seria posteriormente um tradutor premiado, e o primeiro tradutor para norueguês do Catcher in the Rye de Salinger.

Fui-me lembrar deste livrinho, ao ler o texto de Pacheco Pereira, porque nas páginas de publicidade aparece um anúncio curioso de comida para cães de título peculiar.

Estes cãoszinhos gostarão por certo de estar em biblioteca de uma casa portuguesa. Também por lá se ladra principalmente pelo que interessa e por quem interessa, liberdades à parte. Os cãoszinhos do Relvas hão-de gostar disto, dar graças à manjedoura. Os de sinal contrário, terão que esperar pelo fim do racionamento que a rotatividade do regime impõe. Às vezes coro de vergonha ao aceitar estas coisas.

Sobre soliplass

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