No mar

“for really I think that the poorest he that is in England hath a life to live, as the greatest he”

( Thomas Rainsborough, The Putney Debates )

Marinheiro há vinte anos em latitudes mais boreais, raramente evoco aqui as rotinas do dia – ao contrário do blog aconselhado no post abaixo. Em parte, por ser isso mesmo (uma vida de rotinas), vivida numa outra língua, ou em outras línguas, já que as nacionalidades dos colegas são várias. E vivida também no mais das vezes em calão norueguês de marujo (conversa imprópria para salões de chá) o que se designa por grov språk. Verdade seja dita, muitos dias mal atento nas rotinas do dia, sendo o mesmo marcado por uma leitura, ou no beliche ou no deck vendo passar navios. Aceito as contingências, agradeço aos céus o que tenho, e especialmente aquilo de que me livrei – que permantentemente me fazia pragejar em linguagem de marujo.

Foi talvez no Verão de 90. Um camião, um contentor. Chegado antes da hora de almoço estacionou ao sol no átrio da fábrica. Matéria-prima, transporte em navio desde a África do Sul, mar revolto pelo caminho talvez. Abertas as portas do contentor depois da uma, tudo caído, misturado, confuso. Nem pensar descarregar com o empilhador. Solução, à mão, quatro operários e eu, o encarregado. Dez minutos e suor em bica. Mandei parar. Iríamos para a outra fábrica (onde o camião podia entrar e estar à sombra – arrefecer o contentor) esperar uma hora ou duas até que a temperatura fosse suportável. Os operários, sugeriram o contrário (que se continuasse ali) porque se iria perder muito tempo «fode-se a tarde toda». Que ajudaria contudo duas equipas que se revezassem, umas cervejas frescas…

Patrão fora. Contabilista-mor a fazer-se passar por alcaide da empresa. Cantina fechada, chave no bolso da cozinheira, por sua vez em hora de almoço. Solução, frigorífico no gabinete do patrão. Contabilista-mor viu. Para que era aquilo? Quem autorizara? Que a coisa não podia ser assim, uma anarquia, uma bandalheira, um balde cheio de cervejas geladas. Custo irrisório, mas questão de jurisdição sobre os itens frescos. Tinha havido explicação prévia, elogio da boa-vontade dos operários, mas nem isso o demoveu. Ao dito «bandalheira», soltou-se-me a língua. «Bandalho é você, que pensa que isto é seu e não é. Nem a boa-vontade e a fidelidade dos homens, isso é um bem da empresa e tem que ser acarinhado e protegido». Foi aos arames. Que eu não o podia tratar de bandalho. «Não posso? quem é que impede? você?» Dedo em riste, uma garrafa agarrada pelo gargalo, levou a explicação de que já tinha perdido tempo demais com conversa, que o que precisava era das cervejas estampadas nos cornos até as garrafas miarem. Pela janela aberta no primeiro andar do edifício os operários ouviram a gritaria. «É pá, nã valia a pena meter-se em trabalhos por cósa’da gente.» Pediu despedimento, voltado o patrão da estranja. O outro, entre cervejas «estas pagas tu que só me arranjas é merdas», ria-se. Era um oásis num deserto aquele empresário, justo.

Na família por casamento, a cultura era outra. O desprezo por quem para eles trabalhava, um must. A pobre criada, de quem guardo uma imagem de banco-de-carpinteiro, ossuda e musculada pelos cinquenta, a esfregar soalhos de quatro, tinha apalavrado há que tempos uma ida à praia. Exactamente naquele fim-de-semana em que os patrões iriam a Badajoz (era nos tempos pré off-shore) ver os dinheiros a recato em bancos espanhóis. A minha boa sogra, indignava-se por não ter quem lhe olhasse pela cadela por um fim-de-semana, três casas de familiares directos ali a dois passos, e dizia-me espavorida: «já viu onde isto chegou? Vai prá praia! olha a fidalguia! vai prá praia, já viu, já viu onde isto chegou?»

Vejo este artigo no DN sobre o aumento do número de pessoas a ganhar menos de 310 euros e penso que os números – sendo importantes – ainda descrevem pouca coisa. Fazendo vida no mar, vindo diáriamente ao deck repousar os olhos, recobrar forças, a cada dia me espanto com a beleza do mar. Lembro-me de em pequeno, agarrado às ilhargas do meu pai atravessarmos de verão a manhã fresca da serra, cheiros de malvasia e alecrim, tomilho, o tum-tum-tum do motor monocilíndrico da Jawa checoslovaca à descida das curvas de Porto de Mós, e depois aquele frémito de ver o mar passada a Curva da Barca; com a frescura azul do mar da Nazaré a invadir o corpo, mal entrado que fora ainda pelos olhos. Tirei estas fotos a dois de Junho último, ao largo da Dinamarca, ao ler pela centésiama vez os contos do Aleph de Borges. N’A escrita do Deus, a frase «antes de ver el mar, el viajero sente uma agitación en la sangre». Pensei nessa exacta frase, na minha agitação em pequeno ao avistar o azul em cada ida à praia naquelas viagens na velha moto, ao ouvir a outra indignar-se grasnífera pela excursão da criada. Há coisas, momentos, que calam mais fundo que os números. Os sete pecados mortais que se resumem (no dizer de Borges) num só: a crueldade. O artigo do DN nem foca o pior, ao evocar os números. Bem pior que os números – num país de desperdícios, ostentações, mordomias luxuosas e injustificadas – e que a questão aritmética, são os símbolos.

Sobre soliplass

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3 respostas a No mar

  1. Belíssimo texto. (A crueldade, sob variadíssimas formas, é tão comum, tão frequente…)

  2. soliplass diz:

    é comunzíssima e frequentíssima. Encontram-se poucos como vc que se oferecem para enviar algo a um estranho só porque o outro está impossibilitado de aceder ao bem em causa. O que mais se encontra é gente a cercear, a dificultar, a moer aos poucos, por gestos e palavras…

    Dessa vez das cervejas pensei que a coisa dava «molho». O animal nem percebia que se um dos operários tem telefonado ao sindicato (cuja sede ficava a dez minutos) nem se descarregava aquele contentor nem qualquer outro no futuro. Aquilo era um forno. Com o argumento de meia dúzia de tostões, e só por ciumento com o seu fresquinho, estava em vias de destruir algo extemamente útil e valioso para a empresa: a boa-vontade e a prontidão. Parece que poucos percebem – trate-se de empresas ou do país – que a boa-vontade é um dos recursos mais valiosos: dos que devem ser protegidos, não desprezados.

  3. Aqueles que decidem sabem muito pouco sobre o comportamento humano, quer considerado individualmente quer em contexto organizacional, e sobre os antecedentes/consequentes da motivação e do empenhamento. Sabem pouco e não querem saber mais; querem é saber de (jogos de) poder.

    (Quanto ao gesto que refere: nem tal me passou pela cabeça quando comentei. Aliás, poderia ser cruel e ter tido esse gesto; não é por aí.)

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