Agradecendo a herança ao herdeiro

18 de Outubro, saída de Oslo por via marítima. Em primeiro plano, o curioso e típico casinhoto edificado sobre um minúsculo rochedo. E atrás, em segundo plano, com a torre quadrangular de telhado escuro, a Villa Grande. O edifício tem uma história curiosa. Também a do nome, que nem sempre foi esse, embora o tenha sido originalmente. Em 42, o governante fantoche de Hitler, Quisling, batizou-a de Gimle. A Gimle chegam na mitologia nórdica os que sobreviveram a Ragnarok. Numa economia devastada pela guerra Quising gastou fortunas (a que não foi alheia a soberba da consorte Maria Quisling) na redecoração e reedificação, ornou o palácio com mobiliário e obras de arte, pratarias  brasonadas com os símbolos dos novos senhores, maior parte dos objectos produto de confisco a cidadãos particulares e à própria família real.

Às 6.22 da manhã de de 9 de Maio de 45, Quisling fez a última viagem a partir de Gimle, em cuja cave se encontravam de seis a oito mil garrafas dos melhores néctares, partindo de Hulk Aveny 56 rumo a Møllergata 19 – prisão e estação policial por onde grande parte da resistência tinha passado e famosa pelas torturas aí praticadas – naquela que foi também a última viagem do Mercedes blindado que tinha sido oferta de Hitler. Julgado e condenado ao pelotão de fuzilamento, seguiu-se um cortejo de ridicularias com Quising a implorar o indulto. Dez soldados, mãos amarradas, venda, um trapo branco preso ao casaco a marcar o  sítio do coração. Às duas e quarenta da noite de 24 de Outubro de 45, duas horas e vinte antes do tempo estipulado para a execução os estampidos ecoaram junto a uma parede do forte de Akershus, paredes-meias com o centro de Oslo. Reflectia neste episódio no dia em que tirei a foto e também num livro lido recentemente. O Det var her det skjedde (foi aqui que aconteceu) um guia para os acontecimentos e locais mais marcantes na Oslo ocupada. Ali se descrevem este e outros percursos e lugares, com fotos da época e actuais. Impagável.

À medida que fui lendo o livro, fui pensando que é uma pena que não esteja traduzido para uma língua mais franca. Pensei que seria um objecto precioso para gente curiosa destes temas e acontecimentos históricos. Pensei, entre outros, no autor (que não conheço senão de o ler) do Herdeiro de Aécio.

É um dos blogs que mais aprecio em Portugal e é de leitura diária. É um blog que começou em tom divertido: por pudor, segundo reza a primeira frase “Esta de criar um blogue por pudor não sei se será um episódio frequente…” há sete bons anos. Faz hoje sete anos, e não sei se os parabéns se devem mais ao autor que a nós os que o apreciam e gostam de o ler, os seus herdeiros no dia-a-dia. Pelo menos, para mim que tiro fotos de villas de torcionários de um navio, é um convívio diário – ainda que separado pela virtualidade – com a parte que me orgulha num país que diáriamente me envergonha. Pode parecer pouca a dívida a tantos que como ele por aí escrevem bem (e por bem), mas não é.

Tentei deixar lá um comentário, mas sem sucesso (esta coisa das plataformas diferentes), como tinha tentado por outras vezes, nomeadamente num post antigo sobre o rei Olav no eléctrico, uma foto legendária de Jan Greve que fez Karsten Alnæs no Historien om Norge escrever a célebre frase «uma foto legendária que fez os marxistas-leninistas tornarem-se monarquistas». Talvez gostasse de saber que o AdC se chamava Jørgen Hattemaker, que a nota era azul e dez coroas, que a senhora sentada ao lado do rei era a teóloga Berit Okkenhaug, e o sujeito atrás, Per Døvring que contou a história em entrevista ao Aftenposten (a 14 de Junho de 2003). Ainda imediatamente atrás do rei, um sujeito de facies indiano ou paquistanês que nunca interessou a ninguém, e a esse facto (o não interesse) Stian Bromark e Dag Herbørnsrud dedicam o capítulo 2 do Norge – et lite stykke verdenshistorie, onde se recolhe a frase de resposta do revisor: «Det er allrede betalt for Dem, Deres Majestet»: já pagaram por vós sua majestade.

Em suma, é um blog que me fascina, e de cujo autor sou herdeiro agradecido. Daqui, os nossos parabéns e votos gratos de vida longa. Era para lhe deixar um comentário, fica um post.

Sobre soliplass

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3 respostas a Agradecendo a herança ao herdeiro

  1. A.Teixeira diz:

    E que poste! – e não me estou a referir à parte dos elogios e agradecimentos ao Herdeiro de Aécio…

  2. soliplass diz:

    Mais que merecidos, os agradecimentos e elogios. É sempre bom passar por lá pelo seu Herdeiro, pela frescura, informação, partilha de curiosidades e transmissão da curiosidade. Tentei deixar comentário, mas em vão. Daí isto…

  3. Weslley miqueias diz:

    Muito legal o tio Google
    👏👏👏

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