Hans Børli – A machada

Pouco dado ao patriotismo, foi com um certo orgulho que via há semanas atrás o livro de Pessoa (poesias de Alberto Caeiro, ao centro) a par dos grandes poetas nacionais na Casa da Literatura em Oslo. Foto de telemóvel, desculpe-se-lhe a má qualidade…

Olav Hauge de quem traduzi “foste o vento” aqui, e Børli, à esquerda, junto a Hauge, fumando o seu cachimbo. À direita, mais abaixo, a poesia inédita e postumamente coligida de Gunvor Hofmo com um desenho simbólico na capa, o desenho da capa do seu primeiro livro «Quero voltar a casa, a gente» titulo também de um comovente poema, dos muitos que dedicou (grande parte da sua obra, de facto) à memória de Ruth Maier, a sua alma gémea, queimada em Aushwitz. Nesse poema, um dos versos centrais, «quero olhar de face as estrelas sobre o vazio escuro do mar». Novamente me lembrei dele, ao ver no blog de Amadeu Batista o último dos poemas de João Tomás Parreira sobre fotos de crianças do Holocausto intitulado «Duas estrelas».

Em boa companhia estava o Pessoa ou Caeiro de quem relembrei

 Porque eu sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura…

…coisa com que os outros concordaram à sua maneira, um cuidando das suas árvores de fruto, o outro cortando troncos e pranchas, ela, arrastando a dor pelas ruas de Oslo ao tentar que o ser humano melhor que conheceu não caísse no esquecimento.

 Trouxe o livro de Hans Børli, o lenhador pobre que escrevia poesia noite fora, extenuado pelo trabalho braçal. E a quem devemos um dos mais belos poemas sobre essa difícil arte. Que tanto mais aprecio quanto me acho dela incapaz.

 

Na contracapa, em cima e à esquerda figura o  pequeno poema que traduziria assim:

Não, claro – não é difícil escrever poesia,

é impossível.

Ou crês que teria persistido com isso

há mais de 40 anos?

 

Tenta só, tenta

plantar asas numa pedra, tenta

seguir o rasto de um pássaro

no ar.

Outras versões podem ser tentadas, e uma que é boa também (traduzida creio de uma versão inglesa) aparece aqui, junto com uma nota biográfica sobre o autor, no Poesia ilimitada.

 Não sei o que me valeram Pessoa ou Caeiro para acreditar também «que sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura.» Em noites à fogueira ou à luz do pitromax, no meu primeiro emprego de lenhador, escrevi pouco, mas lia desalmadamente. Mal sabia que agora, lendo Børli, mais adivinho o significado dos poemas que os compreendo a partir do texto. Børli, escreveu e falou afinal num dialecto da zona florestal a Leste, empregou palavras a que só chego o significado perguntando a um ou outro colega originários dessa zona e mais velhos. Vale-me em muito ter partilhado (do outro lado da Europa) o mesmo estilo de vida.

 Escrevi aí para trás um post sobre a primeira viga que talhei à machada e sobre como me pareceu belo o nascituro, aquela viga ornada por pequenas gotículas de resina, produto meu e desse instrumento tão eficaz.

 Sei que maior parte da nossa gente de letras, gostará o poema traduzido acima. Mais difícil é gostarem de um outro de Børli, A Machada. Para se compreender a sua beleza é talvez preciso o contacto íntimo com o instrumento, músculo e dependência, destreza e atenção, cuidado reverente, receoso….

A Machada (øksa)

A machada

aquela machada de aço nu

é o atributo do rapaz da floresta

tão imprescindível

como chave na mão de San Pedro.

 

Esgotei muitas machadas,

machadas Mustad, Machadas Finstad, machadas Suecas,

muitas – –

 

Algumas serviram-me fiéis

em dias perfumados de árvores

outras iradas em acendalhas

e em pragas rogadas

à cabeça inválida do ferreiro.

 

Mas todas –

– as falsas tanto quanto as fiéis –

tinham seu rosto

 

O seu austero perfil de aço

diferente de todas as outras.

 

Notas assim que brandes a machada,

o linguarejar próprio

a promessa vou encontrar-te

muitas manhãs,

durar nos teus sonhos

como recordação silenciosa.

 

E quando rodas a machada nova

ao primeiro golpe ensejado,

é como se os músculos ouvissem –

 

Se não aprendes a conhecer a tua machada

a amigares-te com ela,

então acontece: dar-te lembrança

das tradições sangrentas do aço.

 

.(originalmente publicado em Ser Jeg en blomme i skogen, 1954)

Sobre soliplass

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