E melhor que isto dificilmente se dirá

Foi seguramente uma das coisas mais valiosas que este blog me proporcionou. O conhecimento e a amizade de um indivíduo ímpar, dos melhores que conheci na vida.

Leiam Refundar o Estado – Portugal desdentado, reflexão dolorosa, clara e perturbante, sobre a teleologia do Estado e a nossa história colectiva recente; por Henrique Fialho no Antologia do Esquecimento.

(excerto)

A dificuldade que hoje se me coloca, caro Van Zeller, já não é perceber como aqui chegámos. Isso eu sei. Uns falam das famílias endividadas a viver acima das suas possibilidades, como se não lhes tivesse sido possível endividarem-se. Outros falam do endividamento do Estado e das perturbações dos mercados. Outros querem refundar o Estado exigindo às pessoas que reaprendam a ser pobres, como se não bastasse sugerir-lhes que voltem as costas ao país sem dó nem pieguice. São todos farinha do mesmo saco, estes outros. Podíamos, quiçá, começar por ser mais exigentes com quem tira a fotografia. Não esperar cenários idílicos à frente dos quais fazemos pose nem ansiar por amanhãs que cantam sempre em tom desafinado. E depois exigir que se torne cartesianamente claro e evidente a quem deve Portugal dinheiro e por que deve. Foi para sustentar isso a que chamam de Estado Social? Não chega o que nós pagamos de impostos? Foi para manter o BPN activo sem ter que levar à barra dos tribunais a corja de vigaristas e gatunos que andou ali a brincar com o dinheiro alheio? Foi para pagar ao Isaltino Morais e a outros como ele? Foi para construir estádios de futebol e auto-estradas inúteis? Foi para exibir ao mundo uma EXPO, um CCB e outras manifestações culturais de absoluta necessidade? Foi para cobrir sucessivas derrapagens nunca explicadas nos orçamentos das obras públicas? Foi para financiar a banca? Foi para afundar a Madeira num catastrófico ordenamento territorial? Foi para pagar os vestidos da mulher do Dias Loureiro? Foi para subsidiar as mordomias de centenas de políticos e ex-políticos num jogo pornográfico de transferências do Estado para o privado e do privado para o Estado? Foi para comprar submarinos? Foi para sustentar os vícios dos turistas que olham compassivamente para os meninos ou para comprar sapatos, calças e cuecas aos meninos?”

Sobre soliplass

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3 respostas a E melhor que isto dificilmente se dirá

  1. O blogue é imperdível. Fiquei cliente.

  2. Um blog (outros houve antes) e um autor de que sou cliente há muitos anos. Muito bom. Medíocre para as ilustres figuras (de falso estilo) do paúl…

  3. soliplass diz:

    É um post excelente (tal como o autor que muito admiro) e põe o dedo na ferida:
    “E depois exigir que se torne cartesianamente claro e evidente a quem deve Portugal dinheiro e por que deve. Foi para sustentar isso a que chamam de Estado Social? Não chega o que nós pagamos de impostos? Foi para manter o BPN activo sem ter que levar à barra dos tribunais a corja de vigaristas e gatunos que andou ali a brincar com o dinheiro alheio? ”

    Por exemplo o problema das afirmações de Jonet (por muito meritória que seja a sua acção à frente de BA, ou mesmo da instituição que dirige) é que não caem num historial vazio. A tese que as elites defendem agora, de se ter que viver com menos, é exactamente a contrária do que essas mesmas elites defendiam ainda há poucos anos. Não foste tu nem eu que se fomos endividar aos balcões de instâncias internacionais. Não fomos nós que decidimos a construção de elefantes brancos, quem os construía e quem lá tinha emprego depois de postos em funcionamento. Não fomos nós que andámos numa exaltação constante do “ter”, a enfiar publicidade enganosa pela cabeça do vizinho abaixo, não fomos nós que ano após ano falsificámos a contabilidade pública. Não foram festas em minha ou em tua casa que foram estampadas na Caras durante décadas. Nem fomos nós que andámos a estampar jaguars e a ser malabaristas de dinheiro alheio como aconteceu com o O Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social que perdeu no ano passado 1500 milhões de euros na bolsa. Nem fomos nós que andámos vinte anos num arraial constante de cunhas, vigarices, prescrições, falências fraudulentas, carrocéis de IVA, Universidades de fachada, que sustentaram a dolce vita das camadas superiores da sociedade, – que privatizam os lucros e nacionalizam os prejuízos, pervertendo o espírito e a letra da lei sempre que lhes foi conveniente, apoiadas num circo mediático a soldo.

    A questão que se torna mais e mais explosiva a cada dia que passa não é o termos que viver com menos. É que os verdadeiros responsáveis de forma nenhuma aceitam eles próprios mudar de vida. Em minha opinião, mais importante que conseguir empréstimos e financiamentos em bagulho, era conseguir que uma Inglaterra, ou Alemanha ou Dinamarca ou Canadá, nos emprestassem os tribunais por um ano. Mais do que de bifes, talvez, precisamos urgentemente de higiene.

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