Dalbergstien 3

Novembro, frio e cinzento. Sob os pés uma camada fina de geada. Numa pequena caminhada ao longo do parque real, há o som característico da frágil película de gelo que quebra sob as solas, o areão que soa de outro modo. A cidade acorda, anima-se, o silêncio esvai-se – substituído pelos sons da azáfama diária. Numa breve volta na cidade ontem ao cair da noite, Dalbergstien, o número 3. Aqui funcionou um albergue ou casa de hóspedes para raparigas, aqui viveu os últimos dias em liberdade Ruth Maier. Outro Novembro, em 1942. Aqui a vieram prender ao amanhecer do dia 26.

Pelas três da tarde desse dia, uma quinta-feira, as coisas acalmaram finalmente no cais de Vippetangen. Na casa das máquinas do navio de transporte alemão Donau um ajudante de maquinista, Adolf Osterloh pensa, ultrajado, no que tinha acabado de ver durante a manhã. Como responsável pelos guinchos do navio tinha preparado os fardos e bagagens e as redes de carga os para içar a bordo durante as primeiras horas do dia. À medida que ia trabalhando viu entrar o comboio de passageiros no cais. O desembarque dos passageiros do comboio começou imediatamente, gente de todas as idades, crianças, velhos. Gritos de comando e injúrias ribombaram no cais: «Los, Mensch» e «Juden-schwein»…

Além do comboio, chegaram carros. Uma criança, que saiu primeiro do carro que o resto da família, foi pontapeada sem dó nem piedade. Da coberta do navio os marinheiros tinham um bom campo de visão sobre o que acontecia no cais. Reagiram ao que tinham visto, respondendo mal ao oficial das SS que lhes ordenou que parassem a carga. Que não obedeceriam a ordens suas, que só as aceitavam do capitão. Chamado o capitão do navio, não teve outro remédio que não obedecer às ordens da infame e intrépida elite. Suspendeu-se o içar da carga. Os presos judeus foram então forçados a – em passo de corrida e sob uma saraivada de insultos gritados e de ameaças – subir a bordo do navio e trazer a bagagem e a comida entretanto içada de volta para o cais. Para, em seguida, a carregarem pelos seus próprios braços e pernas a bordo. Presos que, por doentes, chegaram em macas, foram, sem misericórdia, ou arrastando-se ou arrastados a bordo. A tudo isto assistiu, não há (que eu saiba), registo do que teria sofrido pessoalmente, Ruth Maier.

Ruth tinha decidido seguir o destino do “seu povo”. Na última entrada conhecida do seu diário (23/10/1942) tinha escrito: «Talvez venham e me levem também a mim. Qui sait?». O certo é que nessa madrugada da prisão massiva de judeus em Oslo, Gunvor Hofmo (a poetisa e amiga que a imortalizou) estava presente em Dalbergstien 3. Pediu para se despedir da amiga e sair à escada. Foi-lhes dada até a possibilidade de descerem à rua. Jan Erik Vold interroga-se na biografia de Hofmo (p.460) se isso seria um sinal da parte dos agentes encarregados da prisão para que se evadissem, enquanto eles desviavam os olhos. Certo é que que interrogada por uma amiga comum, Karen, porque não tinham ensaiado a fuga, Gunvor respondeu: «Ruth não quis.» Nessa tarde cinzenta de 26 de Novembro, à medida que o Donau se afastava do cais, Gunvor diria a Karen: «Sim, podes estar muito certa que é Ruth que vai ao redor de si encorajar todos os outros.» Ruth tinha sido, afinal, o melhor ser humano que tinha conhecido até aí, em suas palavras (carta a Sigmund Moren em 26/2/56) uma «alma-gémea». Dias depois desapareceria para sempre nos fornos de Auschwitz.

Se bem que a poesia de Hofmo tenha sido reeditada na íntegra, em Samldede Dikt (Gyldendal, 1996), tendo mesmo recentemente aparecido mais uma colectânea editada por Vold de poesia inédita da sua autoria, nem sempre se encontram as primeiras edições; e quando se encontram, os preços são, como é de prever, relativamente elevados.

 Soliplass, o pseudónimo que adoptei aqui no blog, é uma espécie de derivado de uma praça onde passo e paro frequentemente – Solli Plass. Em Novembro do ano passado (a 11, mais precisamente), fui sentar-me numa mesa de um dos seus cafés enregelado em dia cinzento, a ler e a tocar três primeiras edições dos seus livros, finalmente encontrados e adquiridos. Os de capa mais clara são da primeira série de livros publicados de 46 a 55. De 55 a 1972 há um longo período de “silêncio” com os famosos internamentos por depressão severa da poetisa. Os títulos publicados nestes anos de 46 a 55 são respectivamente Jeg vil hjem til mennskene (quero retornar a casa, a gente) de 46; Fra en annen Virkelighet (De uma outra realidade) de 48; Blinde nattergaler (Rouxinóis cegos) de 51; I en Vaken Natt (Numa noite desperta) de 54; e, Testamente til en evighet (Testamento para uma eternidade) de 55. São os anos de racionamento, e de relativa penúria de meios. Os papéis destes livros são grosseiros, quase artesanais. A publicação do primeiro foi atribulada, os seguintes já com maior facilidade depois da crítica favorável que o primeiro mereceu da parte de alguns poetas reconhecidos. Neste da foto acima, I en Vakennatt (Numa noite desperta) encontra-se a «carta sonhada». Há registo nos diários de Gunvor de sonhos acerca de Ruth. Nos seus diários, na entrada datada de 11/9/1947, aparece o o seguinte: «Sonhei com R. esta noite, que ela tinha voltado. Esteve em Grini o tempo todo, não foi enviada para a Alemanha. Então disse-lhe eu: mas porque não me enviaste uma notícia, um sinal de vida, toda a minha vida destruída a pensar em ti? Ela apenas encolheu os ombros como era seu modo. Então fiquei fora de mim de desespero e frustração; e vi que ela estava arrependida.»

A carta sonhada, um curto texto de prosa no meio dos poemas, tem este comovente final que assinalei:

Porque a tua face não a vislumbro mais, mas um hino de dor perante mim, e pondo a mão sobre ele, sinto que treme como se fora um coração de ave que em breve vai estourar.”

O primeiro livro publicado, Jeg vil Hjem til mennskene, nunca o vi à venda em qualquer alfarrabista. Era, naturalmente, um objecto cobiçado. Eis senão quando, em Janeiro do ano passado, um amigo de há longa data ao encontrar-se comigo no mesmo café em Solli Plass, tira do envelope o presente. A primeira edição. Papel antigo, sinais da passagem do tempo. Na contra-capa a marca da protecção aos elementos que um outro livro lhe forneceu. Lê-se «A debutante Guvor Hofmo é, aparentemente, uma rapariga comum de Oslo de 25 anos de idade. Tem um emprego parcial (ettermidagsjob – emprego da parte da tarde/noite) num dos cinematógrafos da cidade, e da parte da manhã frequenta as aulas de História da Literatura. – E escreve poemas, que demonstram que não é de todo uma rapariga comum. Eles expressam-se numa língua própria.»

Quem consultar a História da lírica norueguesa (Dikt i Norge; lirikkhistorie 200 – 2000) de Ivar Havnevik, consultor principal da editora Aschehoug à época da sua edição em 2002, pela Pax Forlag, não pode deixar de contrastar os encómios à obra da poetisa, aí a páginas 372-5, como o nome representativo da poesia norueguesa no período imediatamente posterior à guerra «um dos expoentes do modernismo tardio a que a sua forma de expressão se associa de algum modo, se bem que não tenha pertencido a nenhuma escola literária» e a reacção pela parte de um outros consultores da mesma Aschehoug.

Isto é curioso porque na mesma editora a consultora Eugenia Kielland recusa em 4 de Janeiro de 46 o manuscrito sem título que Gunvor lhes tinha enviado. Gunvor recebe então da amiga Karen a dádiva de uma máquina de dactilografar, coisa preciosa naquele ambiente pós-guerra onde tudo é escasso. É com essa máquina que vai passar a limpo o manuscrito (ainda sem título) o que a mesma Eugenia Kielland, num parecer de 3 de Abril, vai apontar falhas formais, falta de clareza, e “ritmo incipiente”: «A escritora deve trabalhar a sua escrita ou escrever mais poemas ao nível dos melhores aqui expostos.»

A 24 de Setembro, perante uma nova versão revista dos poemas dá um novo parecer em que se sente inclinada a aconselhar a sua publicação. Mas, porque se trata de uma debutante, aconselha que dê opinião quanto ao seu valor para publicação ao outro consultor. Chega então às mãos de Arnulf Overland que num parecer (sem data) dita a sentença: «Os poemas não são de modo nenhum desinteressantes. Brotaram de um olhar apaixonado e inquiridor.» Mas, «falhas grosseira no ritmo» e outras imperfeições formais leva a que aconselhe a poetisa a estudar um pouco mais de poesia mais antiga onde «a forma está em ordem». Por exemplo, poesia nórdica até à viragem do século. Dos novos poetas, Collet Vogt, Krag, Wildenvey, Bull e Reiss-Andersen.

Em face da recusa Gunvor dirige-se então à Gyldendal Norsk Forlag com conjunto de poemas e obtém uma reacção, mais do que favorável; entusiasta. A 5 de Novembro, Sigmund Moren: «Gunvor Hofmo não tem apenas em grau invulgar algo de seu, encontrou uma forma convincente e poderosa.» Sigrid Hoel a 15 de Novembro: «Os melhores poemas aqui presentes são perfeitamente conseguidos em pensamento, voz e forma» «esta é uma colecção de poemas brilhante e talentosa». Harald Grieg, em carta a dirigida à poetisa em 18 de Novembro: «É uma alegria comunicar-lhe que que pela nossa parte editaremos com todo o prazer esta colectânea de poemas que teve a gentileza de nos enviar. Gostaria, a esse respeito, de marcar uma reunião consigo tão cedo quanto possível. Amanhã, terça-feira, às duas da tarde, é possível?» O contracto foi de facto assinado no dia seguinte, dia 19 de Novembro de 46. Assim nascia um dos tesouros culturais noruegueses, e nórdicos. Estipulava o acordo que seria editado um número não inferior a 1500 exemplares. Numa primeira referência o livro era apresentado sob o título Kjener du dit hjerte (Sentes o teu coração/Conheces o teu coração). Quatro semanas depois de assinado o contracto aparece finalmente nas montras das livrarias com o terceiro e definitivo título Jeg vil hjem til mennskene cuja tradução não é imediata. Em português, e literalmente, «quero ir para casa para os seres humanos» mas talvez a as frase inglesa «I want to go (back) home to people» ou a francesa «je veux retourner chez moi, les gents» lhe façam melhor justiça. A capa apresentava a ilustração, ou desenho, de Edith Mohn, uma estrada, a árvore ou arbusto desnudo, um horizonte, e… as estrelas. Esse mesmo desenho aparece na sua poesia reunida, e mais recentemente numa nova colectânea organizada por Jan Erik Vold, o livro à esquerda de capa castanha no post onde traduzi o poema a Machada, de Børli.

E era este o objecto de história atribulada, o livro, que o amigo de há longos anos me depunha ali na mesa de um café em Solli Plass de presente.

Gunvor, e a amiga que não deixou cair no esquecimento, calcorrearam muitas vezes estas ruas da vizinhança. Esses mesmos passos perseguiu certamente a poetisa, carregando o fardo da solidão e da dor, tentando encontrar uma forma de expressá-la, de dar um monumento de palavras (Jan Erik Vold intitula um dos capítulos da sua biografia de A dor erige-se em Catedral) à memória dolorosa da amiga desaparecida. Num dos capítulos do Danúbio, num subcapítulo intitulado Mauthausen, Claudio Magris escreveu, e cito da edição inglesa que tenho, «Like the face of the deity for those religions which forbid the representation of his image, extermination and total abasement do not allow of description, do not lend themselves to art and imagination, unlike the lovely forms of the Greek gods.»

Na poesia que escreveu a contra-corrente numa época justamente marcada pelo optimismo da libertação e da liberdade, Gunvor intuiu, e bem, que algo de fundamental tinha mudado na história da humanidade e que era necessária uma nova forma de expressão. Intuiu que nem tudo era passível de eforia e esquecimento. Que a humanidade tinha para o futuro, um fardo intolerável a carregar na memória. Que o aforismo de Adorno que disse a poesia impossível depois de Auschwitz, tinha algo de verdade, se não quase tudo. É um facto que a Ruth Maier a ligaram laços fortíssimos, e é um facto que Ruth era uma refugiada judia que chegou à Noruega em fuga da sua Áustria natal. Mas o horror dos totalitarismos, e o do nazi em particular, não se deteve em fronteiras de credos religiosos. A prova tinha-a no interior da sua família, cristãos, arianos nórdicos, perfeitos exemplares da raça eleita. A sua tia Solveig Smederud, enfermeira, em cima à esquerda pereceu num campo, em Ravensbrück. Sabe-se que passou em Mauthausen, nos registos, consta o seu nome com o número 2552. Também o do seu tio de Ola Hofmo, prisioneiro 98246, homem notável, sindicalista e jornalista morto em durante um transporte para Belsen-Belsen. Sobreviveu ao cativeiro em Sachsenhausen um seu outro tio, Rolf Hofmo, juntamente com o primo Trygve Hofmo.

No papel grosso e grosseiro, testemunho de tempos de penúria de meios, o poema (o último do livro) com o verso que dá o título à obra. Uma tentativa de tradução daria algo como:

Quero olhar de face as estrelas

sobre o nocturno vazio do mar

que canta, canta:

Deleitosa é a noite,

deleitoso é o dia,

nenhum deles morrerá.

Quero retornar a casa, às gentes

como um cego

irradia no escuro

estrelado de mágoas.*

(* literalmente – de brilho estrelar de dor/mágoa/luto. Pode dizer-se que Sorg é equivalente aos termos ingleses «sorrow» ou «grief».

É claro que não pretendo aqui fixar (exercício fútil) uma versão definitiva para a língua portuguesa. Um bom exemplo das múltiplas possibilidades de tradução é este de diferentes traduções de Moesta et Errabunda de Baudelaire. Tento apenas mutilá-lo o menos que me é possível…

Aceitei o livro, comovido, farto de lhe saber a história. Partilhei alguns dos detalhes do seu nascimento com o velho amigo. Em parte eram-lhe desconhecidos. Deitei-lhe um último olhar ao passo estugado depois que nos despedimos, do outro lado da neve, do outro lado da Dramensvei. O casaco de tela e o gorro, a mochila de pele de alce. E senti-me mal por lhe ter aceitado aquilo, do seu espólio, da sua casa. Deste país. É ali, à beira da Dramansvei, que está plantado o monumento à imprensa clandestina tão activa e arriscada no tempo da ocupação. O seu pai fez parte activa dela, foi prisioneiro em Grini. Tal como ele o seria hoje em circunstâncias idênticas, com o seu amor à terra, à cultura, e à floresta que cruza sozinho nos velhos skis de madeira (diz que devem ser de 1970) para preocupação da mulher que passa os dias nevoentos ou claros sabendo-o por ermos e vales, labirintos de neve. Senti-me, provavelmente pela primeira vez na vida, arrependido, ou culpado, de aceitar um livro. Pareceu-me que não tinha o direito de posse, dado o que lhe esteve na origem. Dado ser parte valiosa do património cultural do país que me acolhe. Nem mesmo sabendo, que à data, tinha sido o único que em português tinha escrito algo disponível on-line sobre a história destas duas mulheres extraordinárias: o post Vold, Hofmo, Maier.

Queria também por tudo isto, deixar aqui uma homenagem ao trabalho de divulgação de Agostinho Batista no seu blog. São dele, uma série de traduções de poemas de Gunvor Hofmo que convido todos a ler; sugerindo, se me permitem, a vénia devida a quem gratuitamente (e isto faz toda a diferença – o gratuitamente é no mais das vezes um manifesto de propriedade em comum) se dedica a traduzir e divulgar o trabalho de outrém. A forma, a linguagem, a preservação de um poema, o motivo que lhe está subjacente, é mais que um caso de expressão (mais ou menos feliz) a que chamamos poesia. É o que somos, as fidelidades honradas, um futuro almejado. É, afinal, um caminhar. Tantas vezes solitário, no frio, sobre o peso de uma responsabilidade atroz.

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
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2 respostas a Dalbergstien 3

  1. redonda diz:

    Vou seguir o link…

  2. soliplass diz:

    Faz bem. Está ali um óptimo trabalho, até porque traduzir aquilo é um risco considerável.

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