Coisas ibéricas

Dos diários de João Palma-Ferreira (O candidato de luciféci, Moraes, 1983)

 

e da entrada Madrid, 3 de Agosto de 1978:

 

“A senhora Manola anda mal humorada. Resmunga, exige, tem conversações insólitas com o ferro de engomar e embirra com as camisas. É gorda, esta senhora Manola, a atirar para o reboludo, viúva mística com piso nos arredores. O seu grande problema, além do calor que lhe dá flato, é empregar o filho. Tenho-lhe dito:

       – Mulher, ele que responda a um anúncio, ele que faça concursos!

Mas não, a senhora Manola não vai nessas endróminas. – Para empregos -, diz-me com toda a autoridade das Espanhas que nem me atrevo a contestar – para empregos, senhor, só os políticos.

E às seis da tarde, lá vai, de bastos caracóis feitos em Bravo Murillo, à cata de políticos, a fuinhar por Madrid, severa, viúva, carnuda e de lábio pintado.”

Sobre soliplass

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3 respostas a Coisas ibéricas

  1. António Bettencourt diz:

    O volume II, “porque é tão difícil ser português” tem também verdadeiras prérolas. Sobretudo sobre as voltas e reviravoltas do nosso país nos anos subsequentes ao 25 de Abril e as lutas e lutazinhas e questiúnculas dos nosso intelectuais e políticos pós 74.

    Esta é de cerca de uma ano antes do 25 de Abril, sobre Lisboa:

    17/03/1973
    Aos cafés, de perna traçada sobre a impotência das grandes ideias, os mesmos bacalhaus bacocam literatura. A soturna apagada e vil tristeza de uma miséria gerada no seu próprio ventre. Funestos ensaístas prò futuro batem asas de borboleta cega e disparam síntese de cordel. Pintores aguarelados, escultores que desgraçam o granito, poetas que repetem a lição: autoritarismo, favoritismo, literatismo, o foro, este voo de morcegos bem alimentados de insectos que se deixam tragar, tão sôfregos andam da luz do azeite. Triste Lisboa. p.30

    Ou esta de 27 de Julho de 1974:

    Nunca se saberá porque foi assim ser português. Uma outra história, talvez sem nostalgia, contar-te-á o que a História permite que se conte. O resto é a bruma.
    Sonhámos um mundo impossível de que ficaram escombros e uma velha dor sem emprego. Foi um mundo à portuguesa.
    Resignemo-nos à arqueologia. Dentro de cinquenta anos, quem compreenderá esta angústia?
    pp.92-93

    Por acaso ando agora a ler o volume III, que aqui menciona.

  2. soliplass diz:

    Isso é de sortudo. Bem queria eu encontrar também isso á venda mas nunca tive essa sorte.

  3. António Bettencourt diz:

    Também só tenho o volume I e III. O II pertence à biblioteca. O I vai-se encontrando em Alfarrabistas. Eu li muita coisa do Palma-Ferreira durante o curso. Mas eram artigos científicos. Desconhecia as memórias até há coisa de uns dois anos.

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