Abébias

Ao amanhecer, ao longe, num ar límpido e luz dourada destas latitudes a norte, neve, já distinta nos flancos e no topo das montanhas.

Chegam colegas que rendem os que partem, comentam a miséria portuguesa, o esbulho, a pobreza e dificuldades do momento. Lembro outro, que partiu há uma semana atrás. Engenheiro zootécnico, andou por vários empregos na agricultura. Mal pagos, nem todos pagos, feitas as contas. À noite, para ter um rendimento (pelo menos um) que fosse certo, dava aulas de matemática em cascos de rolha. Com inglês como língua mãe, por ter tido os primeiros anos de escolaridade vividos nessa língua, um pouco vitoriano, escrupuloso e honesto, ouvia-lhe histórias de encantar. Também aquela em que, sendo vendedor de uma fábrica de rações (vendia também produtos de aplicação veterinária) à porta de certo escritório de agricultor-pecuário onde iria ser recebido daí a momentos, depois de já saído o anterior vendedor com quem o agricultor-pecuário discutiu preços e condições até à exaustão da paciência, ouviu um amigo do comprador perguntar:

– Mas p’a qu’é que tás assim a chatear o homem e a discutir preços ao tostão com ele se não tens intenção de lhe pagar?

– É que ele assim pensa que pago!

Já aqui a trabalhar comigo, espírito racionalista e dado às ciências exactas, tendo um fascínio pelas coisas da electrónica e da informática, pediu-me certo dia que o matriculasse eu (não estaria ele em Portugal nessa altura) na Faculdade de Ciências em engenharia informática. Assim fiz. Depois foi vê-lo dois anos, a estudar e ler em qualquer canto depois do trabalho, a horas mortas vindo por mais um café. Trabalhos de grupo, aceitavam-no os colegas quase com a condição de que o mais do trabalho fosse seu. Projectos, trabalhos, prazos. Os prazos eram a sua grande aflição, estando ausente do país e das aulas duas semanas, presente nas duas seguintes. Dos professores lá da casa ouvia-o comentar:

– É pá, foda-se, é que não dão uma abébia!

Dava até para imaginar o símio, recusando ou concedendo, muito entouriçado de si mesmo, sentado em cima da caixa das abébias. Convencidíssimo de serem as abébias sua propriedade. Que tanta ciência e tanta competência, tanta competitividade e tanto rigor, tivessem dado na miséria que está à vista, nem admira. É a modos que cíclico, coisa espiral.

Sobre soliplass

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