Lei de Jante

Hamb 014

Início da semana, tempo de cão no norte da Alemanha. Até as fotos parecem ser de preto e branco. Auto-estrada bloqueada a caminho de Hamburgo, percurso pelas estradas interiores. Sinais coloridos contrastam com o cinzento exterior.

Hamb 017

Aproximação ao Rio, na manhã seguinte, informa o comandante que estão lá em baixo 28 graus já às oito da manhã.

Hamb 026

Hamb 030

Pelo caminho nova releitura do clássico de Aksel Sandemose Um Fugitivo Cruza o seu Trilho; relato da infância de um assassino.

Hamb 033

É aqui se formula a famosa lei de Jante. Lei que tantas vezes de forma errónea se cita para ilustrar a homogeneidade social escandinava. O peso opressor da comunidade com vista a conformar os indivíduos a um padrão comum de comportamento e de status. Nada mais errado. Sandemose é explícito logo acima (sublinhado) quando escreve “a pressão homicida sobre o rapaz trabalhador em Jante”.

Hamb 032

A lei de Jante pode justamente ler-se assim, se substituirmos o «tu» por tu o filho de trabalhador, o que és pobre, o que trabalhas nas férias escolares, o que vens de família dos mais baixos escalões sociais. E o «nós» por nós os (ou os filhos dos) que possuem – ou a quem é reconhecido, ou se pretendem fazer passar por tal – propriedade de monta ou os que ocupam um lugar cimeiro na sociedade de Jante.

  1. Não pensarás que és alguma coisa/alguém.
  2. Não pensarás que és tanto quanto nós.
  3. Não pensarás que és mais esperto que nós.
  4. Não acreditarás que és melhor que nós.
  5. Não pensarás que sabes mais que nós.
  6. Não pensarás que és mais importante que nós.
  7. Não pensarás que és bom em alguma coisa.
  8. Não rirás de nós.
  9. Não pensarás que alguém se importa contigo.
  10. Não pensarás que nos podes ensinar algo.

Nem se percebe, aliás, porque o uso disto foi distorcido. Nem é preciso ler todo o romance para se chegar à conclusão de que a Lei de Jante tem este significado. Nesta edição de 371 páginas ela aparece logo na p.67 num capítulo intitulado A lei de Jante, mas é já bem patente o significado que está na intenção do autor. Logo no capítulo O rapaz que era estúpido Espen Arnakke, (p.23 desta edição de 93 da Aschehoug) o personagem que relata, descreve a sua experiência como servente ou empregado do correeiro (salmaker/fabricador de selas) Larsen. Aos nove anos. Espen comete um erro ao expedir artigos a mando do amo. E é despedido. Nesse capítulo Sandemose pela voz de Espen disserta sobre a vergonha que é sentida pelos filhos dos proletários que têm que trabalhar enquanto os filhos da “gente fina” podiam brincar despreocupados. O trabalho era sentido como uma humilhação a que se votava ódio. Conta a experiência do irmão Janus, empregado num livreiro que era arrancado da cama a meio da noite a recado do patrão. «Alguns julgam que filhos trabalhadores dos proletários vão de roda com auto-respeito e sentido do valor do dinheiro. Deus do céu, era precisamente uma pesada vergonha que poderia ser lida em nós, – e um ódio ardoroso aos rapazes que podiam brincar quando os dias de escola tinham terminado, que podiam ter as suas férias da escola em paz.»

É na sequência desse despedimento que Espen é humilhado pelos “rapazes finos”, liderados por Kristoffer Watch (filho de um comerciante de máquinas) chamado de estúpido e  comentado com indiferença perante os amigos de Kristoffer. O protagonista recordará essa cena como uma das mais humilhantes da sua vida. Voltarão a encontrar-se mais tarde na vida num café em Copenhaga. Será então Kristoffer a abordar Espen, a contar-lhe as dificuldades presentes, o desemprego. Receberá então de Espen duas coroas, dadas com um prazer intenso, o prazer da vingança. Uma espécie de redenção pela humilhação recebida na infância.

É das coisas mais curiosas, esta acepção corrente da Lei de Jante; como crítica ao igualitarismo e homogeneidade social escandinava. Quando o que ela é é uma poderosa crítica aos mecanismos segregadores das diferenças de status social típicas do patrimonialismo de antanho.

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