O resgatador

Já aconteceu em conversa bloguística ou troca de impressões com Carlos Azevedo do The Cat Scats, fazer-se referência a Lombroso e às suas teorias. Ocorre-me com alguma frequência se uma teoria inversa à de Lombroso teria pés para andar…

Não recordo há quantos anos foi. Foi dito por um herói disto. E isto, não foi para brincadeiras. Lembro-me apenas que viajávamos para norte, e que era Verão. Havia sol a bombordo, era já tarde, e a RTPI passava uma entrevista, ou debate, com um político português. Não recordo se de Bruxelas ou de Lisboa, se de outro lado qualquer. Estava um colega inglês com quem comentei que o político em causa daria um bom Presidente. Maneiras de cavalheiro, ar mobilizador, elegante nos gestos, sério no que afirmava, mas com um sorriso sempre humano estampado no rosto. Ao nosso lado, um brutamontes (dos que se podem mandar ir encher as garrafas de ar de uma equipa de fogo e voltam ao inferno, e dos que  seguimos inferno adentro) norueguês, mais preocupado com o preço da cerveja e dos pneus de neve que com política interna ou externa, fitou o ecrã por tempo indeterminado (demasiado longo para o seu jeito) e disse na sua língua natal: é, aquele podia ser usado como salvador/resgatador – redningsmann.

Nem liguei, distraído que estava a pensar o que ia vendo, e ouvindo, em termos políticos. Durante a noite pensando melhor no assunto, ficou claro que que não tinha falado em termos políticos. Na manhã seguinte abordei-o e perguntei o que tinha querido dizer com aquilo de resgatador… se era um resgatador/salvador (redningsmann) ou um salvador político, um «homem providencial» (politisk redningsmann). A resposta veio óbvia:

– Não não, um desses rapazes das equipas de fogo, ou que descem pendurados do helicóptero quando há evacuações.

Não me esqueceu a história. Nem o quanto ela é feita de uma sucessão de rostos que descem do helicóptero em missão arriscada para evacuar alguém a meio da noite e com mau tempo, ou em simples exercício. Ou dos rapazes que nos treinaram, dos voluntários nossos colegas que semanalmente carregam a tralha do ofício escadas abaixo e acima suando dentro de fatos protectores. Ou dos que das equipas de diversos países aparecem para exercícios conjunto. Também eu tenho a mesma memória, se bem que uma amostra de rostos muito mais reduzida que ele. Ao político português, ao rosto, vou de vez em quando em visita (gosto de parar por lá) ao Meditação na Pastelaria. Quanto mais lhe olho o rosto, mais me parece a resposta do outro excelente, e que nela há um conhecimento ancestral. Não o conheci pessoalmente, por pena minha.

 

Sobre soliplass

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2 respostas a O resgatador

  1. Era um homem bom, coisa raríssima — e na esfera onde se movia, talvez seja até uma espécie extinta.

  2. soliplass diz:

    Não me esqueci mais do episódio, nem da avaliação do outro. Seria aliás uma experiência curiosa de levar a cabo: enviar-lhe a foto para estações de bombeiros ou equipas de salvamento náutico à roda do globo e perguntar se, assim à primeira vista, seria homem para aceitarem como colega.

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