Pérolas a monitorizadores

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Aventou Samuel de Paiva Pires a possibilidade de monitorização dos blogs. Onde uns verão necessidade de alerta, vejo eu um sinal de que nem tudo é mau: o desgoverno dará (a confirmar-se) sinais de bom espigamento empreendedorístico, criará emprego de exertia e protegerá indústria antiga de tradição ibérica.

O que me preocupa é a modorra que deve dar a tais censores ou monitorizadores: passar ali o dia a ver blogs que ou citam pela c’um-caralhésima vez a Grundrisse der Kritik der Politichen Ökonomie do barbudo Marx, ou deixam post de begónia no quintal onde flana o beija-flor – intitulado “eu hoje acordei assim…” – é chuchadeira de rilhar os fígados a um cristão.

Por mim, proponho que vamos de vez em quando deixando algo de divertido para monitorizar. Algo que eduque, e simultâneamente divirta, sempre no bom cultivo do belletrism pátrio. Começo já por aqui (a Jonet prescreve a caridade, e o espírito também carece de caldo) deixando duas citações do velho Camilo, deste livrinho em boa hora editado pelo Clube do Autor. Em matéria de coisa postante, chegavam a Camilo notícias de devassa, de vigilância; é assim que do Porto, a 25 de Setembro de 1872, escreve ao visconde de Ouguela:

“Com que então abrem as minhas cartas? É uma infâmia original, desde 1833. Sabes tu meu amigo? O espírito português é essencialmente abjecto, e destinado à servidão, como dizia o Tácito da canalha dos cesários. Não há expungir-nos do sangue a peçonha que nos vem da parte fisiológica que temos de mouros e galegos. Queremos a gleba. Dêem-nos rei absoluto, e conde de Basto e carrasco. “

A 11 de Outubro do mesmo ano,

” Não desconfio que a nossa correspondência tenha sido devassada. Os Fouchet não têm tempo para devassar tudo. É-lhes pouco a noite para cevarem a luxúria servil nos alcouces heráldicos, e o dia mal lhes chega para farejarem os Coriolanos e ungirem e encalamistarem os bigodes. Não obstante, a prudência manda que não demos margem aos patifes a glossarem nas minhas cartas o que quer que seja que levante a grasnada dos patos capitolinos. Se esta gente me põe a polícia do Porto na peugada, chegam a descobrir que eu às 8 horas da tarde estou na cama, de barrete de dormir e cachenez, lendo a Lanterna, e meditando nos latíbulos da minha profunda pessoa alguma falta de veneração à alteza da srª Elisa, que Deus guarde. O governador civil que, às vezes, por aqui vem palestrar, já me encara com um certo olhar de Metternich, e os polícias, quando eu passo, reparam se eu tenho nas costas suspeita giba onde possa levar sumidos alguns foguetes à congreve. Presumem talvez que eu traga nas botas de montar alguns odres de petróleo, pelo modo como hoje um chefe de esquadra se remirou no verniz das minhas botas inofensivas. Isto, todavia, não é, a meu ver, induzido pela leitura da nossa correspondência. Será antes uma prova de afecto que a polícia quer dar à mansidão dos meus costumes. Seja como for, deliberei ser contigo medianamente expansivo, porque receio dar azo a que a nossa inocente correspondência, e agrave por amor de mim o desamor que te consagra a corte e a coorte. (Observa que a nossa língua tem consonâncias maravilhosas: A corte dos bois, a corte dos reis, e a coorte dos ladrões!)”

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
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