Máquina de descarnar

Costumo dizer às vezes por ironia que nunca passei tanta miséria como naquele tempo em que fui casado com a filha de um homem rico. Em parte, por culpa minha. Por orgulho – a que tenho pela melhor das qualidades humanas. De facto foi-me oferecido lugar na empresa do homem rico, meu sogro, o tal que levou a mulher em viagem de núpcias a visitar o Vale dos Caídos. A oferta veio pela voz da presenteada com tal acepipe visitatório; trazia uma condição: que era caso de eu ir falar com o outro sócio da empresa (irmão do homem rico), asqueroso indivíduo com quem me sabia de “candeias-às-avessas”. Pouco perita em comunicação, usou, para meu e seu azar, o termo “pedir”. Levou a resposta óbvia … mas ó minha senhora, quem pede são os pedintes. Que Deus o salve, não me criou o meu pai para tal arte: a de pedir.

Não era que não precisasse. Tendo sido contratado havia meses como encarregado para a fábrica onde trabalhava na altura  fui despromovido (nunca soube se por pedido do homem rico com o propósito de me “vergar”) a operário. Menos cinquenta contos de ordenado. E trabalhos dos mais duros que se podem imaginar. Entre eles, o terror das fábricas de curtumes: a máquina de descarnar – escolhi estas imagens porque se assemelham ao aspecto visual do que vivi meses a fio.

Fez-me bem. Foi parte integrante da minha educação. Trabalhar de ombro a ombro com gente do melhor. Aquilo não era para brincadeiras: perigoso e duro como poucas coisas o são. Era de facto, o pior dos trabalhos. Havia duros, que, começando por ali ao primeiro dia de trabalho, não voltavam depois do meio-dia. Ao postar no ano passado, e ler o poema Como los Bueyes de Almafuerte faço-o com semântica e exegese de memória própria. Essa experiência foi-me preciosa quando voltei novamente a ser encarregado. Tinha a noção da realidade, dos custos em tempo e sacrifício, do possível e impossível. Mas algo de mais precioso: a fidelidade daqueles a quem tinha sido fiel trabalhando com eles ombro-a-ombro.

De facto, creio que a máquina de descarnar (ou outras) fazem falta à educação de muita gente. É uma das riquezas que tenho observado na sociedade norueguesa: muitos jovens universitários, trabalham nas férias nos trabalhos mais duros que as empresas lhes dão como trabalho temporário. Conheci uma, estudante de medicina dentária, que veio trabalhar no período do Verão e que se queixava que não compreendia porque o pai a mandava ir trabalhar num trabalho daqueles: se afinal a tinha deixado e ao irmão torrarem no fim-de-semana anterior, na prática de ski aquático, metade do salário que ali ganhava em gasolina para o barco. Mas o pai, homem rico, tinha a razão. Menos lhe importava o dinheiro que ali ganhava que o compreender o sacrifício alheio. Essa é uma forma de riqueza, quer para indivíduos quer para sociedades.

Toda esta arenga, que já vai longa, a propósito de um post velho de um saudoso professor que tive por mestre na faculdade: Manuel Filipe Canaveira. O post velho (de Janeiro de 2007) que aqui reproduzo na íntegra quase com a certeza de que ele não se importará, é O AprendizPropõe uma curiosa forma de inversão de percurso académico, uma espécie de máquina de descarnar vaidades:

[…]


O APRENDIZ

O baixa produtividade da economia portuguesa é um problema das elites, não do povo. O Zé Povinho às vezes até trabalha demasiado, mas trabalha mal, quase sempre por falta de direcção e capacidade de decisão dos que o dirigem.
Sempre tivemos, infelizmente, uma elite manhosa, que gosta muito de títulos e pouco de aprender.
Tendo em vista esta “deficiência estrutural” do nosso sistema produtivo, proponho a adopção imediata da seguinte medida: a partir de agora, um português ao nascer deve possuir desde logo o título académico de Professor Catedrático de nomeação definitiva. O desafio que lhe é lançado é o de conseguir, com esforço e mérito, ir perdendo títulos académicos progressivamente. Quando souber ler passa a professor associado, ao aprender inglês ou francês é despromovido para a categoria de professor auxiliar, e assim por diante, até ter a honra de ser o Sr. fulano de tal.
Os aprendizes de doutor e de engenheiro tenderiam a desaparecer, é certo, mas a produtividade aumentaria muito.

se nua sandice encalha
dou-o ò demo que é testudo
presume de homem sisudo
de nada sabe migalha
e anda enxovalhando tudo

D. Francisco Manuel de Melo, O Fidalgo Aprendiz (séc. XVII)

Manuel Filipe Canaveira

[…]

Resta dizer o óbvio: este foi o melhor professor de que guardo memória de quantos tive por      professores no percurso universitário. Que o confessar que passei pela máquina de descarnar, desclassificando-me a mim, o não desclassifique a ele.

Sobre soliplass

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