Coisas que se encontram nos livros

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Há dois dias, em sebo e a três reais (ainda estimado) um Alves & etc., que trouxe por nele constar o ornamento, ou nota prévia – até há dois dias de mim desconhecida -, de João Palma-Ferreira. Veio pla nota e prosa do autor do D. Gibão. Indo-me por conseguintemente em barzinho perto a lê-la,  gozando brisa de tarde por entre fachadas ocres e baixas – cores e gostos que os colonos italianos de antanho por certo traziam na bagagem sentimental quando chegaram a este auracarioso sertão e planalto de nascentes. Custou mais o chopinho que o despojo em sebo empoeirado…

Reza a nota prévia, entre outras coisas:

“Alves & C.ª conta-nos uma história bem simples e na qual a mesquinhez (porque não a sordidez?) de quase todas as figuras se disfarça nas roupagens dos falsos sentimentos, dos preconceitos e dos «pontos de honra» que se abatem, afinal, perante o chamado «lado prático» da vida e perante as convenções da sobrevivência. O cepticismo de Eça, esse cansaço a que se refere Alberto de Oliveira e todos os que privaram com o escritor nos seus últimos anos, o desalento diante da convicção de que nada alteraria o rumo das coisas (umas coisas tão latas quanto a vida mesma) e a quase cínica sabedoria de que ninguém escapa, no momento decisivo, aos grandes gestos falaciosos que apenas escondem a fraqueza humana, são bem patentes nas páginas de Alves & C.ª, texto que contribuiu ainda mais para sublinhar o modelo Eça, retocado, após a morte do escritor, pelos excessos memorialísticos dos que sobre ele escreveram. E a ponto tal que nem sequer pestanejamos com a ironia que até na morte o perseguiu quando, como nos conta Vieira de Almeida, a esperar-lhe solenemente os restos mortais se empertigava, na alfândega, o ministro da Marinha. Talvez assim mesmo Eça tivesse descrito o célebre sucesso, porque era o infalível modo de proceder dos seus contemporâneos, os vastos Alves & C.ª. Por isso, por má consciência ou autopunição, se continua a insistir, pró pátria tranquilidade, de que de Eça o que se salva não é o truculento realismo das suas páginas, mas a inofensiva fantasia, porque ainda hoje os nossos mesmíssimos e perpétuos Alves não podem aceitar, como há cem anos, que a realidade tenha deixado antever-se como o escritor a captou. Foram fantasias, encobrindo, é certo (mas com que delicadeza!), a carne da verdade. Mas sempre fantasias.

Ora a curta novela de Eça de Queirós, a história «sem caprichos» de um negociante de comissões no Ultramar (melhor título teria se tivesse sido baptizada de Godofredo, Machado e C.ª,) na sua simplicidade chapada, encerra um drama; um desses que correm tantas vezes no noticiário dos jornais, quando acabam em chinfrim público e tragédia, ou desabam nas salas lúgubres do Cível, quando acabam em divórcio sem espalhafato e publicidade. No caso de Godofredo, Machado e Ludovina, arquétipo português do eterníssimo triângulo, esteve vai não vai para acabar em sangue, com duelo e, portanto, com a honra dos Alves lavada à ponta de espada. Mas não. Passada a excitação da afronta que manchava orgulhos e amor-próprio, este belo clima português e o próspero negócio de comissões repuseram tudo (um tudo tão lato, uma vez mais, quanto a vida mesma) nas devidas proporções. Godofredo e Machado, ao invés de se matarem à espadeirada ou de para sempre permanecerem inimigos mortais, por ofensas de honra em que a Ludovina foi protagonista de relevo, regressaram ao convívio, esqueceram tolices, arquivaram melindres, abafaram angústias e, a engordar no seio das respectivas famílias, levaram a firma à riqueza, instalando-se, sem dores de consciência, sem ralhos e sem azedumes, na placidez confortável e ruminante de quem sabe, como Godofredo tão profundamente sabia, que nada há mais prudente do que a prudência.

E a caricatura (talvez superficial) de uma sólida família da burguesia lisboeta – com carruagem, palacete à Rua de Buenos Aires, vilegiatura em Sintra e uma ética sensata – deixa-a Eça para meditações das ideologias vindouras, sempre tão ansiosas de decifrar a mentalidade que o português herdou do seu passado próximo e que (sabe-se lá?) talvez explique as voltas e reviravoltas morais que a Pátria tem dado.

Superficial? Já houve quem tentasse comparar a obra de Eça de Queirós, no seu conjunto, com a dos grandes romancistas universais – como se em termos de superficialidade-versus-profundidade a comparação, noutros parâmetros necessária, fosse possível – para concluir que autor de A Cidade e as Serras é romancista mais brilhante que profundo, mas o problema complicou-se quando se fez a comparação entre Eça e os maiores nomes do romance português. Do exame resultou verificar-se que, afinal, aquilo que se toma por superficialidade em Eça é condição comum a todos, com maiores ou menores gradações. E, de facto, poderá o povo que foi julgado por Eça de Queirós, julga-lo a ele, escritor, tendo-se, na forma como socialmente se comporta, como padrão de abismais profundidades em relação aos tipos que o escritor passou a vida a retractar? Impossível. Os Acácios, os Cruges, os Dâmasos, os Alencares, os Ramires, os Godofredos e os Machados não permitem. A galeria de tipos que a obra de Eça arquiva e protege da infecção continua a funcionar. Com outros gestos, com outras palavras, sem palacete e sem carruagem, mas com novos ademanes e confortos, os Alves são os mesmos, infalíveis comparsas de uma comédia que monotonamente se repete. Pró pátria beatitude, as personagens, mais convictamente falazes e anafadas de novas certezas, tentam escapar-se ao Eça, fugir-lhe dos modelos, isolar-se-lhe das caricaturas. No entanto, não podem. É superior às suas forças, quase um destino.”

Sobre soliplass

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