Leituras aflitas,… e bom Natal.

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Aproxima-se o natal e o fim do ano. Vejo nas estatísticas que foi um dos posts mais visitados desde que abri aqui o Âncoras: o «Oslo 22 de Julho». E está mal intitulado, devia ser 23, já que as fotos são do dia seguinte.

Tenho, frequentemente (se o assunto é um livro) deixado a foto a ilustrar o post. Mas nunca a dos livros cujas partes foram relidas de forma apressada na tarde de 22 de Julho do ano passado. Não lembro a hora, nem me interessava estar a olhar para o relógio, mas acordei com estas imagens na tv (não exactamente estas, mas as primeiras que a televisão passava repetitivamente – que ali são usadas em fundo da reportagem – e que não encontro no youtube). Tenho turno da noite, descanso de dia, tinha adormecido com a tv ligada. Ficou gravado um som, uma pergunta aflita do repórter que perguntava aos gritos «alô, alguém precisa de ajuda?». Foi o primeiro som que lembro ao acordar e que ouvi repetidas vezes, a cada nova passagem das imagens. No vídeo em link (por volta do segundos 31 a 33) ainda se pode ouvir restos dessa voz, que ali nos surge abafada pela voz do comentador.

Levantado de um salto, roupas enfiadas à pressa, verificado se havia alarme ou se tinha sido dada alguma espécie de ordem de prevenção que por qualquer acaso não me tivesse chegado, voltei ao camarote e comecei a ler para avivar a memória. Just in case… As imagens que passavam na tv eram de uma destruição pavorosa. Quase que diríamos que, de propósito para causar efeito  ou “impacto visual”. Não seria (pensei) o propósito daquilo o body counting, já que era período de férias. Ataque de grupo externo? Já que na Noruega não havia notícias de conflitos internos que justificassem coisa de tal magnitude? Possível. Ainda não se sabia do acontecido na ilha de Utøya. Estávamos ao largo de um dos países onde houvera tensão e incidentes vários desde o início do ano com a comunidade muçulmana, numa ilha que em pouco tempo se afunda com mais de dois milhares de almas à nossa inteira responsabilidade dentro. O descanso não era nenhum.

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Os manuais, que por si só não salvam ninguém, poupam tempo. São instituições. Dizem-nos, por exemplo, que (não havendo ordem explícita noutro sentido) se começa a busca num compartimento pela parede à direita. E que nunca se perde o contacto físico com um colega: quer seja através de uma corda, mangueira de incêncio, garrafa de ar ou calcanhar da bota – se rastejamos. É o nosso “fio de ariadne” em labirintos de fogo ou fumo.

É também a nossa forma mais simples e económica de guiar e de sentir o apoio, numa cadeia de confiança, quer seja para nos salvarmos a nós ou a um estranho.

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Nada disto tem grande coisa de altruísmo ou heroísmo. Nem nada disto se afasta do que é o dever comum e corriqueiro de tantos que como eu exercem esta profissão, na qual, e de forma paralela, o conhecimento destas coisas é necessário.  É puro bom-senso, experiência acumulada por milhares de homens. Ou mulheres. Ter ordens expressas do que há a fazer, de um superior ou de um manual (nem que para entrar no pior dos infernos) é, ainda, um privilégio. Que haja quem, numa cadeia de comando (seja de viva voz ou através de um rádio) tenha alguma noção do que é necessário fazer; que tenha um resumo dos acontecimentos, uma imagem global do que é necessário ordenar. Num ambiente onde o calor se propaga pelo metal a uma velocidade assustadora, três homens dentro de um compartimento sabem muito pouco do que acontece à sua volta e nem os olhos são de fiar ainda que se veja um palmo à frente do nariz.

Num manual conciso, em partes onde a informação vem resumida, aparece uma imagem da brevidade da vida: 24oo litros de ar numa garrafa. 2000 utilizáveis, 400 de reserva. Cerca de 33 minutos utilizáveis em condições de respiração normal, em boa condição física. 20 minutos sob condições de trabalho intenso, dependendo tudo, obviamente, da quantidade de esforço físico, ou mental – do nível de ansiedade ou stress a cada momento – da temperatura ambiente, etc.

É um assunto tormentoso, e de má memória, para se evocar aqui ao deixar um agradecimento aos leitores que por cá passam com os desejos da parte do Âncoras de um Bom Natal. Faço-o por dois motivos: o contacto com os leitores (a alguns dos quais, que nunca vi, voto uma estima longe de imaginar quando comecei isto) são afinal o “fio de ariadne”, é uma espécie de “mão no ombro” neste labirinto nevoento a que chamamos vida. Mas também, porque sendo um assunto doloroso, creio que os detalhes do manual (mais do que um estar aqui eu a contar a vidinha) podem ser uma mensagem de esperança…

Nesta altura do ano em que tantos portugueses enfrentam dificuldades acrescidas, em que, mesmo muitos dos estão em situação mais desafogada vêm o que se passa à sua volta com um sentimento de desgosto ou repulsa, quando não de abjecção pela injustiça inútil e pela perversão da verdade mais simples, quando verificam que aqueles que teriam a responsabilidade de dirigir e proteger mais não os preocupa que salvarem-se a si próprios, não esqueçamos a lição das garrafas. Estamos ainda, e apesar da ubíqua precariedade da vida, vivos e úteis, enquanto o ar nos chegar.

E estamos a tempo de, como o repórter em Oslo que no meio dos destroços gritava «alô, alguém precisa de ajuda?» sem descurar a sua missão profissional, de olhar à nossa volta e buscar quem dela precisa. Por pouca coisa que pareça uma voz que pergunta pode levar ao lado de lá um mensagem importante: alguém se preocupa. Soube o repórter, certamente sem pensar muito no caso, que estamos todos de algum modo ao serviço de uma instituição ou sociedade maior – a que Burke chamou (noutro contexto) uma aliança entre os que vivem, os que são mortos e os que ainda estão por nascer…

Às vezes, como nos compartimentos em chama dos navios, ainda que isso não nos salve, sentir uma mão no ombro, ou na garrafa, uma voz, ajuda. É uma mensagem simples e intuitiva – anterior mesmo ao que prescrevem religiões -, mas importante: a de partilhamos um destino comum; a de uns dos outros dependermos.

Um bom Natal a todos.

Sobre soliplass

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3 respostas a Leituras aflitas,… e bom Natal.

  1. António Bettencourt diz:

    Um bom Natal também para si e para os seus. E continue sempre a dar-nos as suas reflexões e os seus livros.

  2. Cristina diz:

    Voltei!
    Li o post “Duas rodas”. Creio ser liberdade e fragilidade, com diz, as palavras que melhor exemplificam esta prática contagiante de pilotar duas rodas.

    Sua reflexão natalina me leva a pensar neste “fio de Ariadne” – a internet! Poderíamos facilmente traçar um paralelo entre ela e a motocicleta…
    Boas festas, repletas de serenidade.

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