Deus proteja

Dornes: The Enchanted Peninsula!

Dornes. Creio que é ali, descendo a rua que dá acesso à igreja e à torre que damos de caras – numa fachada da rua perpendicular – com uns dizeres em azulejo (cito de memória e agradeço eventual correção) que serão, mais coisa menos coisa, isto: Deus proteja esta casa da inveja. Lida a frase isolada, a “inveja” tanto pode ser um atributo ou designaçao da casa, como aquilo de que se roga a Deus protegê-la.

Lembro-me novamente dos dizeres na parede de Dornes ( localidade que há uns anos atrás estava rodeada dos restos negros dos incêndios), como me lembrei na altura em que uma crónica comoveu o país: A soldado desconhecida, de Ferreira Fernandes. Li aquilo com uma sensação de desconforto maior que a natural consternação perante o destino trágico da abnegada rapariga que deixou a vida  num matagal ao defender o país comum. O desconforto de saber que  nunca mais se lhe dedicaria uma linha à memória, e que a crónica, como um penteado ou o nó de uma gravata pouco passava de um exercício de estilo.

É que, à notícia de um cliente de banco atendido na rua por estar mal vestido (encarvoiçado como a Josefa?) numa altura em que as elites, bancárias incluídas, apelam ao trabalho, e à poupança e ao viver com menos aguenta-aguenta (em grande parte pelas falcatruas do sistema bancário no seu todo) e mais ao diabo que as carregue, novamente me ocorre que deveríamos ter à saída do desembarque na Portela ou em Faro, em cada porto, em cada posto de fronteira ou embaixada, um letreiro gigante que servisse, simultâneamente,  de aviso a quem entra face ao “eco-sistema” que que o espera, e aos naturais como rogo ou prece: Deus proteja este país de hipócritas.

Sobre soliplass

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2 respostas a Deus proteja

  1. É delicado comentar isto, porque receio não ter a capacidade de me explicar correctamente. Assim, por partes:
    1. O que aconteceu é aparentemente indesculpável, e é talvez um sinal do estado a que tudo isto chegou.
    2. Se fosse um filho da puta de um corrupto de fato e gravata e perfume caro e malcheiroso, era atendido com todas as honras e ainda lhe ofereciam um Nespresso (café de pato bravo).
    3. Infelizmente, a imprensa manipula constantemente as nossas emoções.
    4. Repare: o senhor é referido como dono de uma sucata e, a partir daí, tratado por «o empresário» (o que é correctíssimo).
    5. Simplesmente, a mesma imprensa que o trata por «o empresário» tratou durante meses a fio Manuel Godinho por «o sucateiro» (escrevi sobre isso aqui: http://thecatscats.blogspot.pt/2009/11/o-nosso-viver-colectivo-2-e-em-jeito-de.html).
    6. A escolha das palavras não é inocente. Este homem é vitimizado pela imprensa, como o outro foi cruxificado. Que este seja uma vítima e o outro um filho da puta, parece-me altamente provável, mas tenho sempre a sensação de estar a ser manipulado por quem noticia.
    7. Dito isto: a ser exactamente como o imprensa diz, eu, no lugar daquele senhor, agiria como ele (ou pior, porque uns tabefes na altura certa nunca fizeram mal a ninguém).

  2. soliplass diz:

    Esse entre parênteses do ponto 7 é sã doutrina. Mas não me admira nada que ocorresse como foi contado porque mentalidade daquela há muita. Você diz bem, é talvez um sinal do estado a que isto chegou. Lembrando-me eu de que um padre que me fez baptizado da descendência e por vir eu de família um pouco mais pobre que o amigo e pai da consorte nunca me dirigiu palavra (esquecendo-se da possibilidade do amigo estar a bater à porta do pobre 20 anos depois dizendo-se falido) receio é que isto tenha chegado ao mesmíssimo sítio de onde partiu. Aliás, vem na notícia também que o figuro gerencial se teria recusado a identificar à GNR, que identificasse o banco e tal… fosse um de motoreta que viesse do trabalho a recusar-se e tinha baile armado.

    Nisso da manipulação imprensial, tem toda a razão também. É preciso dar-lhe o devido desconto…

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