Nefelibatas e âncoras

Não me lembro já onde encontrei esta foto (num site de qualquer de voo livre que não sou capaz de recordar) mas ela esteve na origem do título deste blog, sítio de má-morte, coisa indefinida e oscilatória, ao centro de lado nenhum.  É um gancho que se prendeu ao arnês de um amigo, um piloto de asa delta. O site dava a notícia e os pormenores do acidente que lhe causou a morte no campeonato de asa delta há uns anos atrás na Austrália. E ali estava sobre solo ressequido o cabo e o gancho usado em descolagem traccionada. Era quase a imagem do verso 7 do cap. 12 de Eclesiastes: Then shall the dust return to the earth as it was…

Conheci o Robin em 94 nas montanhas norueguesas, na  descolagem de Vågå no Oppland , a Meca de então do voo livre nacional. E foi ali que há quatro anos tive a notícia da sua morte por outro piloto. Ao pesquisar sobre o acidente deparei-me com a foto do gancho e do cabo sobre a terra ressequida. E com o paradoxo de ter sido a rotura do que o prendia à terra a causar-lhe a morte sobre o chão poeirento numa descolagem que correu mal. Foi o Robin o mais acérrimo nefelibata que conheci. Vivia de azul e nuvens, viveu para o voo livre. Das fotos antigas, tiradas na velha máquina de rolo ficou também esta a sua asa que cruza o vale, sobre as casas de madeira e a Stavekirke de Vågå, um lago azul-turquesa que se transforma em meandros de rio, mais abaixo em outro lago que vi pela primeira vez  num dia gelado, com gansos que vogavam entre água e gelo vindos por engano a uma primavera prematura, soalheira e gélida.

 Lembro-me dele, da última vez que o vi, de botas da tropa desapertadas, a meio do Skagerak soalheiro, o cabelo longo, crespo e loiro, apanhado em rabo-de-cavalo e os olhos já postos nas montanhas do Atlas, onde esperava chegar no velho Mercedes amarelo torrado – literalmente torrado, a poder de anos, ventos e sóis – um carro de que era fonte de risotota por usar toda a espécie de combustível e do qual se dizia que queimavava «Gud-vet-hva» como se diz na sua língua, «sabe-Deus-o-quê»… Nómada do vento, por aquela altura (a meio dos anos noventa) ganhava o que lhe permitia voar no resto do ano em empregos sazonais. Nem o bilhete da travessia que eu lhe ofereceria de graça, por ter sempre mais do que uso, aceitou.

Há 17 anos atrás, numa foto tirada com material fotográfico hoje obsoleto,  preparando as alfaias da arte, um pouco a noroeste de Lom (das poucas fotos que guardo dele) fazendo generosamente de guia a uma pandilha que incluía suíços e alemães, trapagens de asas e sacos camas, em buscas de esvoaçar ao som da música ou pipilar de barómetros electrónicos lendo as pautas inconstantes de ventos e térmicas.

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Várias vezes campeão nacional, bateu record sobre record de distância em asa delta. Admirava-lhe a forma de vida, o nomadismo. E também a forma como a sustentava (pelo trabalho braçal, não por via de sponsers) na altura. Essa forma parcial e dura de ganhar a vida – recordo que uma delas em barcos de pesca no terrível mar do norte – levou-o também a ser um pioneiro em muitas coisas: travessias de cadeias de montanhas, a ser repetidamente campeão do seu país; a ter pontos de vista sublimes sobre paisagens de sonho, atento aos sons do vento e à leitura dos instrumentos.

Volto de novo a pensar nele depois de ver um post do Ponteiros Parados, blog estimadíssimo cá de casa e sempre lido com agrado. Desenvolve-se ali uma tese que faz um certo sentido:

“Um trolha tem tanto direito a ser uma pessoa feliz como um arquitecto vestido de preto e óculos redondos. Por isso, quanto mais bronco ele for como pessoa melhor será para a sua identidade. Será muito mais feliz, andando de tronco nu lá na obra a imaginar que é o Rambo a lutar no Afeganistão contra os russos, do que estando a fazer cimento na betoneira com uns phones nos ouvidos, deleitado a ouvir Pierre Boulez.
Se não se pode voar será então preferível não ter asas. Uma andorinha tem asas e usa-as para voar. Muito bem. Um cão não vive angustiado por não poder voar pois, não tendo asas, nem sequer pensa nisso. Agora imagine-se o sofrimento de uma galinha que tem asas mas não consegue voar. É como dar um chocolate a uma criança e dizer que não o pode comer. Ora, um trolha culto e com sensibilidade cultural seria como uma galinha. Por isso, mais vale não ter asas e o assunto fica logo arrumado.
Em função disto, pensando no direito de todos à felicidade, talvez não fosse má ideia recuperar o modelo platónico de uma sociedade fortemente hierarquizada e com classes sociais bem distintas quanto à sua formação e modo de estar no mundo. Defendo, pois, que a escola e a alta educação deveria ser apenas para jovens com elevadas expectativas científicas, intelectuais e culturais. Todos os outros, deveriam ser dela excluídos.”

Felizmente, e até para a tese, existe sempre o nosso Vitor Baía (homem de pouca instrução formal, meu instrutor de voo livre, saudoso amigo, e que não passou pela universidade) que forneceu a informação metereológica ao primeiro português a conquistar o Himalaia. Ou os Robins. As galinhas, felizmente, puxam por pela imaginação e imaginam asas inimagináveis… Ao vermos um gajo com ar de trolha ou pescador é melhor não o tomar apenas por tal que pode ser um «trolha nunca se sabe» ou um trolha parcial… Formas de sublime há muitas, imaginação e sonho sobra, de Pierres Boulezes ouvidos em harpa esvoaçante no interior de uma nuvem sobre montanhas é melhor nem falar. E nas sociedades de classes fortemente hierarquizadas, como é o caso da portuguesa, trolha e excluído pode ser forma de libertação. Ou de higiene. Comigo tem funcionado; Deo Gratias por tanta galinha que voa, cão que mia e maneta pianista, e porque que o mundo é vasto… lembro-me até de um trolha que deu um ciclo de conferências admiráveis: a dos piolhosos.

Sobre soliplass

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