Geometria descritiva

Nunca tinha visto nada assim. Por volta dos sessenta, de terno e gravata, baixinho e ar fadista. Engenheiro, professor de geometria. Disse logo e “p’ra pôr o tabaco a 14”, que não era outra coisa que o “mestre”. Mestre ficou. De costas, escrevendo no quadro, «Sim? Mas então isto é o-da-joana? Sim o quê?» E a turma repetia em coro divertida: «sim! Mestre!» A nós, ficavam “a excelsa dama” e o “distinto cavalheiro”… «como os distintos cavalheiros e excelsas damas por certo farão o favor de notar…, esta recta, ao passar – como gato por brasas… ou cão por vinha vindimada, à escolha de cada um, obviamente – por este ponto, intersectará fatalmente o plano de fundo neste outro ponto aqui …»

Gabava-se de nunca na vida lhe ter chumbado um aluno. Recitava Bocage (o recitável em salões de chá), Camões, etc. E de uma circunferência  desenhada à unha que compassos eram coisa de principiantes, que até não estava mal de todo, passava a explicar a história do círculo de Giotto. Princípios de Maio, matéria dada. «Agora vamos divagar, fazer uns exercícios impossíveis, p’ra avançar a ciência.»

Uma das coisas que lhe admirava era, coisa que frequentemente acontecia, o não explicar sozinho os detalhes relativos a algum problema mais complicado. Pedia assistência a um ou dois de nós. Defronte do aluno que não percebia punha os ajudantes a segurar dois esquadros (por exemplo)  à frente dos quais segurava um  cilindro. «Tá a ver, onde iria bater a sombra deste ponto do sólido no plano horizontal para lá da linha de terra?», com o ponteiro tangente ao cilindro, passando pelo orifício do esquadro na vertical tocava com a ponta no que era seguro na horizontal. «Não, passeie à volta disto, veja de vários ângulos!» e o obtuso mirava passeando à volta do mestre e assistentes. Os que seguravam os esquadros percebiam quão difícil era a tarefa de fazer compreender; ali matava três coelhos de admiração por ele.

Logo na primeira aula, dadas as regras do ali mandava o mestre, não haveria anarquias ou bandalheiras. Fariam as regras com que os seus discípulos não andassem de roldão misturados com a outra canalha que inundava o recreio a cada toque de saída: ao estipularem que se sairia cinco minutos antes do toque. Pra meditar.

Mandou arrumar… e, farsola, pôs-se à porta, segurando a maçaneta. «É lá! mas que vem a ser isto?» gritou. «Não, não, senhoras primeiro, como é de ordem e de bom tom! Não faltaria agora…»

Às últimas das «senhoras primeiro», andaria tudo pelos 17 – 18 anos de idade (12º ano) lançou de forma muito discreta um orçamento de curvas; a golpe de olho. «Agora o Mestre!».

Já ia a sair quando deu meia-volta nos calcanhares. Pressentindo que estaríamos a entrar na idade antropofágica em que os ímpetos naturais dividem no sexo oposto entre as muito boas e as que servem perfeitamente, piscou o olho e disse confidente, sorriso disfarçado «Sim, que já é altura de irem começando a perceber… isto de ser cavalheiro… lá terá as suas conveniências!».

Sobre soliplass

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2 respostas a Geometria descritiva

  1. Excelsas memórias, diria eu. 🙂

  2. soliplass diz:

    É, aquilo era cheio de bons conselhos teóricos e práticos. Saudoso homem. Só mais tarde a gente percebia porque nunca lhe tinha chumbado um aluno.

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