Déjà lu

jabor 010

Ouve, estimadíssimo leitor, com alguma suspeita do tipo «onde é que eu já li isto?»  nos  esconsos da cachimónia, os grasnidos oikonómicos «não há alternativafeche-se a democracia 6 mesesaguenta aguenta» de alguns dos papagaios do nosso firmamento mediático?

É possível que tenha lido já em outra vida e noutro continente a crónica Sexo e Amor com Déficit na Balança Comercial, de Arnaldo Jabor:

“As paredes de zebra tremiam sob a luz lilás de os espelhos fumê multiplicavam ao infinito os corpos dos amantes.

Lucineide já sentia o prelúdio de um orgasmo delirante, os primeiros sinais de que chegaria ao prazer “qualidade total”, prazer “nível 1” quando a virilidade de Jonas F. (45, economista com PhD em Stanford e director do Banco Central) começou a sumir dentro dela, como se fosse um avião com o reverso ligado, um desastre à vista.

Jonas F. ainda tentou com fé, mas sua masculinidade foi virando nada, ar, saindo de dentro de Lucineide, a fogosa secretária do BNDES, que fechou os olhos, tentando ainda aproveitar os últimos detritos do botãozinho em flor, mas o vazio se instalou e o que era pedra se fez espuma.

Na TV do motel, o filme pornográfico virava um amontoado de corpos tristes, enquanto Jonas acendia um cigarro e Lucineide tentava o tipo “compreensiva”:

– Meu amor, que foi?

– Os juros, Luci, os juros altos – gemeu o economista.

– Querido, isso acontece a qualquer um.

-Talvez, mas sem juros altos estamos perdidos.

Baixa os juros, amor.

Jonas F. sorriu com amargor.

_ Não posso. Como vamos atrair dinheiro estrangeiro?

[….]

– Porque não baixa o custo do Estado? – disse a linda loura baixinho.

– Se eu pudesse… Faríamos o ajuste fiscal, mas para baixar o custo, precisamos fazer as reformas na Previdência, a administrativa, a tributária… Aí diminuiria o déficit público…

Lucineide tentou animá-lo:

– Ah, meu bem… Deus é grande… Vai passar tudo… Passa a reeleição, passam as reformas, até esses seus juros baixos vão passar – disse Lucineide, rindo com os seus dentinhos lindos, enquanto beijava o seu corpo lentamente.

O economista começou a se animar. Sentiu alguns tremores nos meios de produção, uma leve expansão na demanda, mas logo viu que eram apenas rumores do mercado.

– O congresso não deixa fazer reformas. O Estado é deles, eles representam os donos do Estado.

[…]

– E então, amor, que fazer?

– Terei que manter os juros altos, para atrair capital externo e financiar o déficit público.

– E se fizermos as reformas?

– O congresso conservador não deixa.

Lucineide abraçou-o com ardor. Uma idéia lhe queimava o corpo lindo. Ela mordeu com força o ombro do amante. Em sua dor, Jonas F. caiu na cama redonda de cetim, enquanto Leonilde soprava sensualmente em seu ouvido:

– Reformas sim, meu amor… a gente fecha o Congresso!

Os beijos ficaram mais ardentes. Jonas em seu delírio via o Congresso fechado com cadeado enferrujado e teia de aranha. Os gemidos da TV pornô vibraram no ar. E os gritos de Lucineide se somaram a eles: “Meu nome é Lucineide Fujimori, Fugimori!… Meu homem, meu amor…”

A luz lilás brilhava como uma esperança de progresso e Jonas F. de Almeida e Souza, PhD em Stanford, viu subir no espelho a prova de que era finalmente um grande amante.”

Arnaldo Jabor, in Sanduíches de Realidade e outros escritos, (pp.232-6), Objectiva, Rio, 1997.

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