Crepúsculos longos

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Havia em A Nau de Quixibá de Alexandre Pinheiro Torres um trecho em a mãe do protagonista lacrimejava saudades da pompa dos crepúsculos longos de outras latitudes; em tudo contrários àqueles do sol que “caía de súbito com a sem-cerimónia equatorial” nas ilhas de S. Tomé.

Ao ver o velho comunista aparecer com a motoreta-triciclo zundap dobrando a curva do café, sempre vestido com o fato-de-macaco de cotim azul desbotado, a enxada e o ancinho, a foice roçadoira e o regador na caixa, evocava-se a passagem. Tinha horta na parte do vale que era mais plana, quase um delta a embocar no vale principal. E, em virtude da orografia, tinha crepúsculos prolongados naquele palmo e meio de terreno em que trazia horta ano após ano; um dos únicos luxos de uma vida espartana.

Alto, seco, elegante, vida retirada. Que fosse ou tivesse sido do MDP/CDE para os locais não faria diferença. Comunista tinha sido, preso e tudo, comunista era por economia de léxico. Tinha também sido um cavador mítico, invencível na cava de surribar. Instrução primária mal concluída tornou-se leitor voraz. Em tudo um estranho. Lembro a colecção invejável dos neo-realistas seus contemporâneos. Na aldeia era o único que aos livros achava ponta de utilidade. A sua.

O meu pai, seu secretário na junta, admirava-lhe as contas limpas, cada centavo gasto em cada deslocação à capital do distrito e do concelho devidamente documentado. Nas primeiras eleições pós-25 de Abril elegeram-no presidente da Junta. E foi só. Cumpriu a missão de electrificar, abrir e pavimentar estradas. Não expropriou, não endoutrinou ninguém, não enforcou padre pelas tripas na torre sineira. Qualquer retaliação cairia no inútil, se não no ridículo; seria gente de mais em terra  de «cada um só tem o que merece». Um comunista retirado. Que, cumprido o mandato, se retirou de vez. Não se lhe conheciam pecados. De virtudes espartanas, a minha mãe (amiga da mulher – a única de casa que socializava), apontava-lhe  os duches frios a cada levantar. E um semi-pecado: o grande apetite. Desculpava-lhos em parte pela vida activa que levava a cuidar das terras, em parte por compensar a fome que lhe tinham feito passar na prisão: «passou lá muito coitado! Não o deixarem dormir, porrada e judiarias que lhe lá fizeram até eles quererem…»

Só falei com ele mais longamente já em velho e doente. Ou ouvi, a voz pausada e grave pouco dado à ironia e ao humor no que me parecia um misto de desencanto e indiferença face ao correr do mundo. Sentados em cadeiras de vime na varanda, ouvindo o marulhar da fonte que se fazia em riacho a dois passos da casa. Deveria ter estudado mais cedo aquela lição: o único que lia livros; e que tinha sofrido, dia-após-dia, havia muitos anos, a tortura.

Sobre soliplass

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