Verbo

Ita 083

 

Começo do ano num aeroporto. Casa ainda à vista. Farnel de viagem, Ruben Fonseca e Alberto Manguel, mais uns avulsos.

Em Stevenson sob as Palmeiras Manguel relata uma conversa entre Stevenson e um missionário que bem poderia servir como alegoria aos tempos da doutrina económica que corre.

Ita 081

 

” Alguns tempos antes da minha chegada um missionário foi viver para lá, [ilha de Salamandra perto da costa da Nova Guiné] para levar a palavra de Deus àquela gente bestial. Demorou muitos meses até aprender a língua deles, e tendo conseguido, pôs-se a traduzir para aquela fala de grunhidos e guinchos a Epístola de São Paulo aos Efésios, em que o apóstolo, como o senhor está lembrado, instiga os pagãos a servir a Deus, não servindo à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo. Pois esse homem passou anos traduzindo as palavras sagradas para a língua da gente de Salamandra, trabalhando dia e noite. Mas os caminhos da carne, como é preciso que eu lhe diga, são fracos, e os que não sentiram as feridas dos cravos e dos espinhos não têm defesas contra os males deste mundo. Um por um, os nativos caíram vítimas de uma doença simples, uma forma atenuada da varíola que o homem de Deus havia contraído antes da sua viagem, e quando cheguei à ilha só havia um punhado de homens e mulheres, fracos e escaveirados, para me receber. Algumas semanas depois, quando o missionário completou o seu trabalho útil e a última palavra da Epístola de São Paulo havia sido vertida para aquele dialecto primitivo, o único nativo de Salamandra que ainda restava foi confinado a sua cabana, da qual só saiu para ser enterrado com seus companheiros que antes dele já haviam ido para aquilo que denominam, em sua cegueira, de ‘o mar além do mar’. Meu bravo missionário havia completado sua obra, a tradução do Verbo do apóstolo para uma língua que agora só ele falava. O senhor acha que isso importa? Nem um pouco: prova apenas que o Verbo sempre haverá que sobreviver à Carne. “

Alberto Manguel – Stevenson sob as Palmeiras,  Companhia das Letras, S. Paulo, 2000 (pp.31-2)

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Uma resposta a Verbo

  1. Também comecei o ano com um do Rubem Fonseca por perto… o «José». Abraço.

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