Migalhas, estrelas, mãos

Já a aproximar-se do fim da vida, Gunvor Hofmo publicou no seu livro de 1984 (Stjernene og Barndommen – As estrelas e a infância) um poema sob o mesmo título. A primeira estrofe,

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Conheço do marinheiro longas vigias da noite

O seu coração solitário come da luz das estrelas

Pode alguém saciar-se da eternidade?

Faz a seguir uma evocação dos dias luminosos da infância, de um quarto exíguo mas dotado de janelas em todas as direcções, dando sobre o mar, quintais e baldios, o céu e as estrelas. Aí lhe luziram também corredores, livros ilustrados, teatros de bonecas. Passaram depressa esses anos? «Não há pressa», respondem as estrelas, «que a tristeza e a dor chegarão bem a seu tempo». Og det gjorde det – «E assim foi»… diz a última oração do poema.

Sempre que posso, sempre que o tempo disponível o permite, aos meus colegas de turno da noite (rondas de fogo, quartos de vigia e navegação, plantão na sala de controle das máquinas) faço uns acepipes que lhes dêem trégua (ainda que curta) de comidas sensaboronas, filhas da pressa, sobrinhas do enlatado, noivas prometidas ao micro-ondas. Hoje, baguettes estaladiças, jamon de Segóvia e brie, queijo jarlsberg e rodelas de chouriço, peito de frango marinado em coisas provençais, a cobertura agora final de molho tandori. A velha Gunvor que com Ruth Maier comprava leite pelas quintas do Gudbrandsdal antes de alcançarem Trondheim, onde viveriam de um emprego numa florista e de livros em segunda mão, aprovaria por certo o menu… Conheço do marinheiro a longa vigia da noite…

Ao meu (à época) cãozinho, ia dando, ao cozinhar, miunçalhas de frango, fanicos de pão. Sob censura – que o iria tornar num «pidão». Vejo agora que fiz bem, enquanto é tempo – que todos estamos, bichos e gente, sob o cutelo impiedoso da vida. Todos seremos, mais tarde ou mais cedo, numa Madrid sitiada, uma espécie ou outra de Luís Delgado no bar Chicote. Uns terão Hemingway que o conte, outros não… fica a universalidade de “certainly any small acts of kindness you can do in life are worth doing” do último parágrafo do conto The Denounciation.

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Mal sabem os meus colegas navegadores e rondadeiros (ou aquele brutinho peludo e glutão de olhos fixos na bancada) quão literárias lhes vão as baguettes, cibos de frango, migalhas. Pagam-me uns com café, pilhérias contadas, risota. O outro, peludo bruto branco, em lambidelas de mãos. Ignorante da minha costela de literato, apenas grato à amorosa mão do cozinheiro, ainda nisso, e em suspeitas intuitivas, se revela digno e bom discípulo daquele cortês Diego que o Shandy de Laurence Sterne relatou: o da ode à mão de Julia:

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