Aproveitamentos e parcimónias

Há talvez já cinquenta anos, no tempo em que poucos comiam bifes, havia na zona um padre de cachaço grosso que aterrorizava aldeias e caminhos ao volante de num Simca. O padre «cabeça de macho» – assim o alcunharam os paroquianos que desabafavam quando o viam passar desabrido no «autmóvle»: É alma dum corno! Qu’inté parece que vai ele a cavalo no diabo!

Passou o padre certo dia por Valverde, e, entre paredes de pedra, meia dúzia de bicos que por ali catavam grão ou minhoca não tiveram largueza nem tempo de escapar ao Simca. Acudiu a dona da criação à porta do casebre alertada pela nuvem de cacarejos e pios, penas e pó, e deu-se com uma franga espalmada a pneu. Já o padre parara o instrumento mortal, e consolava a miséria da velha que lamentava a poedeira:

Deixe estar minha senhora! Não se perde; nada se perde! Faz uma canjinha muito boa; muito boa! Tudo se aproveita!

Unhada a defunta pelos pés, atirou com ela carro adentro e seguiu.

Sobre soliplass

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