Gadelhudos e carecas

Consegui finalmente falar directamente com ele. Às nove da manhã, e sem passar pela secretária. À medida que envelhece, cada visita ou cada telefonema se avolumam com a probabilidade de serem últimos. Ao melhor homem que conheci apetece-me a cada vez raptá-lo. Ir almoçar com ele cañas e riojas, morcilhas e calamares, bocadilhos, à plaza mayor de Salamanca. Irmos a podar os olivais sozinhos, chão largo e nosso, ar, cheiro de aroeiras e rosmaninhos, casos de perdizes e lebres. Falar de coisas sérias ou só jogar conversa fora, ver-lhe o sol a dançar nas rugas, rir-se e contar. Ou raptá-lo lá para casa para jantares longos, especulativos e filosóficos. Qualquer coisa que evite ter que passar por ela. Dela descem uma série de reprovações explícitas ou subentendidas, acusações e ironias amargas, agressividade acumulada. Ultimamente, por causa da neta. Entre ela e a neta, está a vida honrada de pobre que escolhi. Esse dique a impede (à mais nova) que corra a um futuro radioso. Se a transferência mensal lhe permite domicílio na Linha, não permite o resto dos apetrechos da vida entre Lisboa e Cascais – bmw-x5, casamento com seiscentos convidados, marido ideal dos que têm herdade vinícola em Borba ou cátedra futebolística num painel televisivo. Por crime de lesa-futuro trago pouco que dar em dote; e os maridos ideais, num mundo de calculado putedo também trazem umas luzes de aritmética para azar das duas. A vida que levo é uma espécie de contraceptivo que lhe impede almoços plenos de gonçalos ataviados com sapatos de vela e polos ralph lauren que já nascem louros e a tratar-se entre irmãos de você. Queria uma gonçalada dessas por bisnetos em almoços de sábado, aparecidos ali ao fim da manhã em passeio TT e logo desaparecidos – depois de despachado o arroz-doce da sobremesa e de carregado o bom «azeitinho» do campo – a ir tomar café à vista do forte de s. Julião. Por azar, estive eu pelo meio, e nada tem que mostrar às vizinhas. Ou que contar à saída da missa.

Tudo é reprovado, desclassificado, apoucado. Livros, já que lhe apareço sem gravata, nem nos cheques se viu «dr.» precedente do nome que me escolheu. O carro, já nem mercedes é por já ter passado dos vinte anos: parece ao pé do dos outros desconsolado triciclo de assar castanhas em rua augusta, hora de fecho do comércio. Deve ter começado a desconfiar de mim em infante ao descobrir que não lhe maquiava o porta-moedas. Tudo maus sinais.

Não posso em sã consciência, por mais incómodo que me cause, acusá-la de grande coisa. É apenas uma forma de ver que um patrimonialismo imemorioso reinante no seu tempo e lugar lhe apresentou como a única mundividência. Nem me posso queixar de sofrer algo de extraordinário; afinal, quantos conhecemos que nas mesmas condições passam exactamente pelo mesmo…

Para a matrona portuguesa média um assalariado como eu por filho – que só desceu a vida e nunca subiu a fatídica cepa torta – é o pior dos infortúnios. Ao pé disso, a inconstitucionalidade do orçamento ou o relatório do FMI são peanuts. Para a matrona portuguesa, campónia ou urbanizada, um Duarte Lima não será nem muito lateralmente colporteur de sacos azuis ou malas pretas, patrono de latrocínios e lenocínios; arguido coisa nenhuma, será sempre um modelo de filho. Ou um mártir azarado, no pior dos casos.

Mandassem elas na iconografia eclesiástica, por essas províncias fora e nos retábulos das vias-sacras nas igrejas, não iria ladeira acima com um madeiro às costas gadelhudo nenhum. Ia um careca ao volante de um jaguar.

Sobre soliplass

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3 respostas a Gadelhudos e carecas

  1. Escreve muito bem. Gostei de ler: humor corrosivo q.b. Portugal tão bem retratado…

    Cumprimentos.

  2. Rapte-o. Não hesite nem deixe pistas. Grande texto.

  3. soliplass diz:

    Enfim…fazer o quê? Até tinha evitado este “contar da vidinha”, não fosse ver tantos achacados pelo mesmo.

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