Blogs, leitores

Não foi nomeado o blog da minha avó para o concurso do Aventar e por duas excelentíssimas razões: morreu antes de haver blogs e nunca soube escrever nem ler. Mulher excepcional, inteligente e boa, de olhos azuis, nos meus tempos de rapaz foi das que mais gostei de namorar.

Desmontava de um cavalo travesso e desinquieto, pigarço e misturado de árabe,  ficava a namorá-la no patim onde costurava ao cair da tarde sentada no degrau da porta, por entre roseiras. O corcel nervoso dava arranques e esticões, ouvia, medroso, camiões ainda à subida de Lamego, e nós ali no norte do Ribatejo. Levantava-se ela, magrinha e encolhida, as mãos quase translúcidas raiadas de azul na pele clara, falava-lhe, descia-lhe a mão pela testa, abaixo das narinas e do beiço em concha, e ele caía-lhe naquele berço. Ali ficava, quieto de orelhas pendidas.

Também eu gostava de a ouvir. De lhe rachar lenha para o inverno e de lhe chegar com as carroçadas de cavacas à casa de viúva. Dela nada ficou escrito. Apenas o falado que lhe ouvi e trago comigo, misturado com um cheiro de maçãs que descia do sótão passado o Verão. Como lhe gostaria de um blog onde pudesse continuar esse namoro. Ainda que não nomeado ou premiado. Ainda que um blog de um só leitor.

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Novamente em Chenonceau, ao ver a galeria que serviu de enfermaria a feridos da primeira Guerra Mundial, me lembrei do meu avô António, dos seus dias de soldado nas trincheiras de Flandres. Desses dias pouco ou nada nada sei, dele restam uma cédula e uma foto. Do que viveu não deixou registo. As suas agonias ou folguedos desapareceram para sempre. Por pena minha. Quanto gostaria de lhe encontrar um diário, apontamentos. Mais uma vez, impossível. Sabia assinar e fazer contas. Não soube escrever. Nem lhe ocorreu, talvez, que valesse a pena. Nasceu e viveu, e morreu, num país em que apenas os do poleiro “cantam de galo”. Ou de pavões.

Sobre soliplass

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3 respostas a Blogs, leitores

  1. O meu avô (Raul) também andou pelas trincheiras da 1.ª Guerra Mundial… (E mais tarde, como GNR, andou envolvido – de que maneira não sei – na Guerra Civil Espanhola). Mais tarde ainda, meados da década de 50, foi reformado compulsivamente: foi apanhado em jogos clandestinos em São João da Pesqueira. E – para acabar de contar o pouco que sei da sua vida – casou pouco depois pela segunda vez, relação de que nasceria o meu pai. Morreu em 1975, a poucos meses (ou dias?) de completar 80 anos – vítima de um fígado que passou mais de metade da vida a arruinar com o vinho que comprava com o dinheiro da reforma. Eu nasci uns anos depois e já não o conheci.

  2. Cristina diz:

    E em herança para nossos descendentes, deixamos esta ferramenta com parte de nosso DNA.

  3. soliplass diz:

    É uma ferramenta preciosa; digo eu…

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