Jorros

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Nascente do Alviela. Passo por ali perto todos os anos, quase sempre em infracção, a caminho da inspecção periódica do carro. Estando pouco por cá, deixo passar os prazos. De uma inspecção a outra são por vezes parcas as centenas de quilómetros rodados, mas a lei é a lei. E a lei manda que a gente vá inspeccionar os veículos. Se o prazo passou não passasse, se cá não estava, estivesse. Tudo isto, é claro, pouco reverte em segurança rodoviária, reverte a favor do imenso empata-fodismo e caçada de coimas em que os caminhos e estradas parecem andar transformados. O Estado e seus couteiros, falcoeiros e almoxarifes, ao contrário da clara nascente do Alviela, jorra diques e armadilhas aos seus súbditos, em vez de os ajudar ou promover, como seria o seu dever primeiro.

Lembro-me que a dois passos dali, numa fábrica em que trabalhava há um quarto de século, por não ter paciência para esperar por choféres, e por ser preciso de quando em vez o transporte de mercadorias em veículos pesados, decidi ir tirar a carta de condução dos ditos. Ainda alguém se lembra do teatro que era tirar a carta de pesados? Das aulas de mecânica dadas por instrutores broncos, dos mecanismos expostos serem de motores antiquados (quando não supérfluos como era o caso dos motores a dois tempos que se estudavam também – alguém viu um motor a dois tempos de 125 c.c. aplicado a um camião?) travões de tambor com tirante, caixas de velocidades do tempo da mari’cachucha? Quando as lições de condução eram dadas em Bedfords velhas de trinta anos que se lhes carregassem quinhentos quilos já não arrancavam? A tudo isso, o Estado assistia impávido e sereno, e o “Zé pagante”… pagava. E muito, porque a brincadeira não ficava barata.

Escândalo dos escândalos, eram os exames de mecânica (pelo menos os do meu tempo) em que uma grande maioria dos examinandos reprovava. Não porque não soubesse mecânica. Mas porque sendo na maioria gente humilde não sabia português e caía nas famosas «rasteiras». Reprovava, não por não saber o que se lhes exigia saber, mas por não saber decidir o que responder, ou não entender a pergunta: que no mais dos casos não era simples nem explícita. No caso do exame de mecânica a que fui submetido, de 45, fomos aprovados 5. Os outros quarenta desgraçados, toca de meter mais requerimentos e papéis, pagar mais impressos e selos, perder dias de trabalho, pagar mais lições… Uma das coisas mais nojentas que vi em Portugal. E que muitos viram. E em que “ninguém” reparava porque se tratava de gente humilde na maior parte dos casos. Gente de trabalho, que da habilitação necessitava para os seus negócios ou para emprego.

À volta desse negócio de “esmifrar o Zé” girava um firmamento de estrelas: funcionários da  DGV, instrutores, proprietários das escolas de condução. E tudo estava bem porque nem podia ser de outro modo. O Estado, a quem incumbia zelar pelo interesse dos cidadãos mais desprotegidos, protegia as coutadas e os couteiros. O Zé pagante a espécie venatória a esmifrar e esfolar, vezes consecutivas se possível.

Surpresa das surpresas, aqui há uns anos achei-me desabilitado de conduzir pesados. Unilateralmente, o Estado decidiu que os prazos de renovação das cartas de condução se alterariam, e sem me avisar decidiu que já não posso conduzir um pesado. Mas porque “carga d’água”? Desaprendi algo, ou tive doença degenerativa física ou mental que me apontassem e comprovassem? Não. Isto faz-se, porque só afecta (normalmente), a população que não tem voz. E a que paga, porque para isso (pagar e servir) existe. Quem é que pensou fazer de uma esterqueira destas um país europeu ou uma democracia ocidental? O que isto jorra é empata-fodismo a cada esquina, esterco e indiferença em cada ministério.

Sobre soliplass

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2 respostas a Jorros

  1. soliplass diz:

    Isto, cara, é tudo (como o Brás Cubas do Machado de Assis) ainda da escola de Coimbra…

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