Citando: «Banqueiros à fome»

(e citando do A Devida Comédia  de Miguel Carvalho), o texto de Alfredo Mendes:

Banqueiros à fome

«Fiquei muito sensibilizado com as sábias quanto bem avisadas palavras desse tal Ulrich.

Bem-haja.

Manhã cedo, logo deambulei com os meus filhos pelas frias ruas da cidade, apontando-lhes alguns sem-abrigo enrolados em cartões e farrapos deitados nas imponentes escadarias dos bancos. E adverti-os:

“Estais a ver ali aqueles desgraçados? Foram banqueiros, meus filhos, senhores do dinheiro e de muita pesporrência que não souberam gerir os negócios, que foram corroídos pela ambição, que desbarataram colossais quantias em aplicações ruinosas. Claro, com o dinheirinho dos impostos dos cidadãos não podia, depois, o Estado proceder a injecções de capital; de contrário, seria cúmplice dos desvarios, pois se assim mesmo age em relação a qualquer pessoa ou empresa.

Olhai ali, andrajoso e descalço, é o Oliveira Costa; acolá, escanzelado, alimentando-se de garrafas de água da companhia, o Dias Loureiro; agora, respeito, muito respeito, aquele senhor chagado, calvo, de mão estendida aos transeuntes implorando por uns cêntimos, chama-se Duarte Lima, e aquelas mãos, meus filhos, até sabiam afagar órgãos de igreja.

No albergue dos pobres, podeis ainda encontrar muitos ex-ministros que foram banqueiros do BPN, pena dolorosa das malfeitorias que fizeram a todos nós, enquanto um Jardim Gonçalves, despojado de bens e de reforma condigna, qual genuíno soldado da opus dei, maltrapilho, faminto, faz fila para se aquecer com uma sopa de grelos. BPN, BPP, BPI, BCP, BES e BANIF sempre perseguiram o bem-comum, ajudaram os mais desfavorecidos, nunca lucraram de forma obscena com as crises, recusaram peremptoriamente qualquer benesse ou apoio estatal, pois são verdadeiros paladinos da iniciativa privada, do funcionamento dos mercados – o Estado só estorva, repetiam eles. E ei-los como exemplo de austeridade, de aperto do cinto, de contas transparentes, incluindo as do IRS dos tais oito milhõeszitos de salário do senhor Espírito Santo iluminado.

Filhos, não vos deixeis cair em tentação, para banqueiros, nunca!

Olhai – e bem – para este triste depósito de indigentes cuja pronta e eficaz justiça dos homens os condenaria a este impiedoso sofrimento.

Juro:

–E aguentam, aguentam.»

Sobre soliplass

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