Huge windows that exclude the light/ And passages that lead to nothing…

Na passada terça, estacionando o carro no parque da Universidade, desci a pé a rua do ICS rememorando o tempo que o frequentei como aluno de mestrado em Política Comparada. Se a frequência da academia e o convívio com os bons mestres deixaram boas memórias há o reverso da medalha: a inutilidade do que se aprende quando somos confrontados com o discurso político do dia-a-dia. No meu caso, a linguagem e argumentação política  corriqueira tal como a vejo esparramada por blogs e gazetas causa-me repulsa. Na maior parte dos casos, se o assunto é política numa conversa, calo-me.

Hoje, terminado o jantar, saído a tomar duas bicas, no ecrã da televisão ao fundo do café, um painel comentava o caso franquelim. A “argumentista” perorava em silêncio forçado, já que da televisão não saía qualquer som. Fiquei a vê-la movimentar os lábios e os olhos, percebi que em defesa franklinista. Nada do que pudesse ter ouvido me surpreenderia já. Vim para casa rir sozinho, e, pensando na silenciosa “argumentista”, ler um capítulo do História do Mundo em Dez Capítulos e Meio de Julian Barnes, onde dá notícia, através de transcrição e com humor magistral, do estranho caso levado a tribunal por causa da perna de uma cadeira roída pela vermina na igreja de Mamirolle – motivo da queda e imbecilidade de Hugo, Bispo de Besançon – e a defesa do bicho-carpinteiro por Barhtolomé Chassenée (plaidoyer pour les insectes), no julgamento pedido pelos habitantes de localidade. A argumentação por franquelim afigura-se-me aparentada com a linha de defesa do ilustre causídico (que já se tinha distinguido na defesa de ratos) em prol das bestioles no ano de 152o.

O tratamento e discussão desta ordem de coisas como as do caso franquelim, e as argumentações em  defesa da sua escolha para o elenco governativo, causam, ou o riso, ou um desespero melancólico. Na maior parte dos debates políticos em Portugal ocorrem-me dois versos citados a respeito do castelo de Col por James Boswell no The Journal of a Tour to the Hebrids with Samuel Johnson que relata a viagem de ambos por terras escocesas de Agosto a Novembro do ano de 1793, na entrada de 6 de Outubro. Fui à estante abrir o volume com o relato da viagem e relembrá-los: Huge windows that exclude the light/ And passages that lead to nothing…

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O debate, o tom da linguagem, a matéria o o propósito da argumentação política em Portugal, quase sempre me lembram isto.

Sobre soliplass

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