Caudais

 Lembro-me desse dia nevoento de Inverno em que engravatado fui apanhar o expresso para Lisboa, naquele tempos em que os bancos corriam nacionalizados. Foi por essa época que um vizinho (homem de negócios local) veio oferecer lá a casa um emprego para um banco: numa sucursal do Crédito Predial Português. Era por concurso público, mas tinham-lho oferecido a ele, para ele oferecer a um dos seus “conhecimentos”. Por deferência ao meu pai, calhava-me a mim, rapaz com estudos que andava em vidas amarguradas de trabalho braçal. Para não armar batalha familiar lá fui “sabotar” os testes. A data será fácil de encontrar, lembrando-me do ano e consultando os exemplares do Correio da Manhã dessa altura. De interesse particular para aquela cidade de província era nesse dia de há três décadas a edição do jornal: anunciava-se em extensa reportagem um gigantesco projecto que incluía tudo e mais alguma coisa e até, ali no íntimo de cascos de rolha, imagine-se, uma pista de Fórmula 1! Não era preciso sibila para adivinhar ali vigarice da grossa, tal o laudatório do artigo com muitos desenhos e projectos.

Passaram três décadas, ali se viu de tudo: arruamentos construídos, corridas selvagens de carros nas ruas abertas, depósito de lixos vários, pastagem de rebanhos, etc. Ouve muito que se não viu, já que a coberto escuro foi local predilecto  de acasalamento automobilístico. Cópulas descomunais e repetidas com fulana ou sicrana que à «boca pequena», ou grande, se iam afixando pelos cafés… O mais que se aproximou de hotel, campo de golf com 18 buracos, implantação, e um contacto mais directo com a natureza que ainda em 2005 lhe vaticinavam.

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 Passo por lá, frequentemente, a caminho da casa dos meus pais. O aspecto é o de cima, e a cada vez me lembro daquele artigo laudatório no Correio da Manhã, folha ostensiva de crónicas de professores universitários, retirados ou no activo, ex-ministros, e empreendedores vários. Olhando para aquilo, olhando para o tempo que foi passando, ocorre-me que o Correio da Manhã não é apenas mais um título da nossa imprensa: é um caudal. Nem me admira que uma faixa da população o leia. Admira-me que alguém com dois dedos de testa não se envergonhe de lá escrever.

Sobre soliplass

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