Bandeira

Excelente texto sobre gente e ambientes que por norma mais se evitam que retratam; de Carla Remualdo no Aventar: Às mulheres do matadouro:

       […] Na sala de evisceração (poesia pura), as cabras estavam penduradas pelas patas traseiras, já mortas, numa longa linha que atravessava a sala, enquanto duas mulheres, cada uma começando por um extremo e avançando para o centro, iam esventrando os animais, um a um, com um desses facalhões enormes que só se vêem nos filmes de terror. Cravavam a faca e deslizavam-na pelo ventre do animal, gestos rápidos, sem hesitações. As vísceras caíam para uma bacia, elas limpavam o interior do animal, cortando as vísceras que restavam, depois empurravam a bacia com o pé em direcção ao animal do lado e repetiam a operação. Os movimentos eram rápidos e precisos. O cheiro era nauseabundo e até o proprietário, um tanto envergonhado, veio sussurrar-me que era por causa da brucelose, normalmente não seria tão intenso.  […]

Trouxe-me o texto à memória o velho matadouro de Mafra, que visitava com o meu tio que lá ia negociar; com os seus cheiros de patas e buchos cozidos (prás dobradas e mãozinhas-de-vitela), os couros empilhados nas pedras da sala das peles, muitos mal salgados, um cheiro de podridão mal disfarçada, com os vermes a formigar nas partes mais grossas ou espojosas do couro do animal: os beiços e os úberes. O nome associado aos ferros (o “ferro” era um número que designava o marchante ou magarefe que ali mandava abater rês ou reses) cujas reses penduradas depois da esfola eram de imediato reconhecíveis assim que se entrava na sala maior do edifïcio. Vendia tal marchante para os abastecimentos militares. Era dali que comiam os nossos soldados (e isto já bem depois do vint’cincodabril, e do povo aliado com o MFA): de umas vacas magras e que se viam chegar febris, por vezes de joelhos ou já deitadas, e que era necessário arrastar do camião para que ainda chegassem vivas à choupa. Boa propina deveria receber o veterinário que aprovava aquilo para consumo, os que o compravam dentro do organismo ou entidade competente nas Forças Armadas. As reses eram reconhecíveis pelo amarelado da sua pouca gordura e pouca carne, pelos tumores purulentos (os tumores eram muitas vezes visíveis ali pelo chão, quando o magarefe não os amputava deixando-os ainda pegados ao couro) de que tantas vezes padeciam. Diitoso país que tais soldados tem.

É talvez uma das maiores e mais fiéis bandeiras nacionais que me lembro, aquelas reses penduradas, daquele “ferro” abastecedor da Manutenção. Tinha todas as cores necessárias: o verde do pus, o amarelo da magreza e da doença, o vermelho do sangue que pingava. Tinha todas as cores, mas não em vivo, como na bandeira de pano dos edifícios. Era uma bandeira desmaiada, triste, a modos que em tons pastel. Á sua sombra se colheu bom despojo e a glória destas coisas em contado.

Sobre soliplass

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