Tout comprendre

015

Contemplar como Francisco… Nunca mais lá tinha entrado. Há coisa de um mês passei por lá, ao fim da tarde, e entrei. A contemplar. Aquele fim de manhã em que se baptizava a menina. O reverendíssimo padre, amigo dos avós maternos, aos paternos nunca dirigiu palavra. Eram mais pobres, uma espécie de ursupadores dos pergaminhos e bens de família do amigo.

014

Passei por lá para rever-me a mim próprio há vinte e cinco anos, olhando incrédulo um espectáculo digno de uma cena de Camilo. Ciente da obrigação de ser família para aquele ser que dava entrada no mundo, abrasado de vontade de correr tudo à chapada. E de não pagar a conta; coisa que fatalmente sobre nós (os ignorados) recairia.

Saí para o largo da igreja de Fátima, mal iluminado por um sol mortiço, a lembrar-me de um trecho do romance de Jorge Carvalheira As Aves Levantam Contra o Vento:

Lá foi Gaspar levado para o seminário, assim se dignem os senhores padres velar por ele, a propina é insignificante. Saiu de casa eram três da manhã, atravessou os descampados da Atalaia em cima da jumenta e gelaram-lhe as mãos a segurar a pequena mala onde guardava o bragal marcado a tinta hesitante. A mãe caminhava atrás, e Gaspar sentia-lhe as passadas no saibro do carreiro estreito, misturado ao trotar da burra, […] vai deixar partir o filho e regressar a casa sozinha, atravessando o que resta da noite, o que sente só ela o sabe, e Gaspar apanhou a camioneta do Côa, que o deixou, contra sua vontade, na estação do comboio.

Passados vinte e cinco anos pouco resta da indignação daquela manhã. Pobre homem, aquele padre, já velho, a pele sardenta como que uma película que segurasse os líquidos de num corpo informe. De que escuros e de que pobrezas ascendeu, quantos dos jantares em casa daqueles de quem foi uma espécie de «criado de fora», quanto do riso das crianças das famílias que o acolhiam duas ou três vezes por ano, foram a sua única e aproximada experiência de família?

«Tout comprendre, c’est tout pardonner», assim vai o aforismo. Talvez o velho padre necessitasse de mais tempo. O tempo de ver o velho amigo vir a casa do ex-compadre ignorado chorar-se de falido duas décadas decorridas, o tempo de ver o meu pobre pai de lágrima no olho ao dizer-me que teve pena do outro.

Sobre soliplass

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3 respostas a Tout comprendre

  1. Obrigada por escrever estas coisas pessoais, mais ou menos ficcionadas, isso não é relevante (sei do que falo, como diz o outro), como não é relevante saber como se chama.

  2. soliplass diz:

    Quem me dera que fossem mais ou menos ficcionadas. Ou que este tipo de coisas fossem extraordinárias; e não corriqueiras.

  3. Sim, mas poder escrevê-las neste registo contém a possibilidade de as viver de outra forma, tornando-as má ficção.

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