Família, pátria, economistas

f. l. ordem 022

 

Luis Fernando Veríssimo escreveu-a já há alguns anos (encontra-se em O Mundo é Bárbaro – e o que nós temos a ver com isso, Rio, 2008, Objectiva, p.43-4) mas talvez nos interesse a nós neste momento:

Analogia doméstica

“Quando querem tornar as coisas mais fáceis para nós, os leigos (leia-se os burros) compreendermos, os economistas costumam recorrer à analogia doméstica. Um país é como uma família, não pode gastar mais do que ganha, dizem. Um país é como uma família, precisa ser realista no seu orçamento e responsável nos seus gastos. Senão um país, como uma família, vai à bancarrota.

 Como todos nós (os burros) temos ou tivemos uma familia, fica fácil entender o que os economistas querem dizer. Ainda mais se eles falarem devagar. A analogia é até algo enternecedora, pois lembra aquelas velhas aulas de aritmética em que os problemas sempre envolviam uma situação doméstica com a qual podíamos nos identificar. Você eu não sei, mas eu estudei aritmética acompanhando os repetidos dilemas de mães obrigadas a dividir quatro gomos de laranja entre cinco filhos, e até desafios maiores à sua engenhosidade e senso maternal de justiça.

 É verdade que quando passávamos para problemas mais complicados, trocávamos o ambiente familiar pelo mundo lá fora, com suas contas difíceis e suas tragédias latentes. Quanto tempo levaria para que dois trens vindo de direções opostas nos mesmos trilhos, numa velocidade, se chocassem? Mas ainda eram narrativas, ainda tinham ação e personagens. Eu me distraía tanto pensando naquelas histórias, nas suas possíveis vitimas – filhos esquecidos pela mãe e traumatizados para toda a vida, os prováveis mortos e feridos no terrível acidente ferroviário – , que esquecia da aritmética.

 Existe o mesmo perigo de ficarmos imaginando a família-modelo dos economistas e esquecermos sua lição. O pai (Egídio) é um exemplo de controle e sobriedade, como os economistas no poder gostam. No passado se excedeu, gastou mais do que podia e foi obrigado a fazer um empréstimo. Mas está pagando o seu empréstimo responsavelmente, como os economistas no poder recomendam. Mesmo porque precisa manter o crédito para conseguir empréstimos para pagar o seu empréstimo. Mas ja que estamos no terreno do reducionismo didático, me ocorre uma situação familiar supersimples: um dia o seu Egídio é obrigado a escolher entre alimentar os seus filhos e pagar a sua dívida. Qual o exemplo que ele deve dar para a nação? Está certo, melodrama não. Mas se vamos recorrer a exemplos simplistas, então sejamos simplistas até o fim. Pois a escolha diante da nação é exatamente a escolha do nosso pai de familia imaginário.”

Sobre soliplass

email: friluftogvind@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s