Democracia, manifesto

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  A velha tese de Erica Simon, publicada nos anos 60, um excelente exemplo de uma investigação sem recurso a métodos quantitativos, da qual voltei a reler partes recentemente para relembrar a génese da democracia norueguesa, e que novamente me ocorre a propósito do recente Manifesto que por aí anda nas bocas do mundo.

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Era coisa que se aconselhasse a quem (nestes dias de emigração) chegasse aos países a que se refere, e à Noruega em particular. Explica muito da génese das atitudes sociais modernas, da forma de encarar a cultura, e do tipo de linguagem (terra-a-terra) que se utiliza na esfera pública e no discurso político. Conselho vão, já que lá chegaremos do país em que já sabemos tudo.

Em finais do sec. XIX desceu de um dos vales a norte (o Gausdal) um homem vestido de surrobeco que entusiasmou a juventude estudantil da época com as suas conferências em Oslo. Christopher Bruun, um religioso camponês que idealizou na Noruega uma educação voltada para as necessidades do povo, não uma educação elitista, seguindo a mesma corrente iniciada por Grundtvig na Dinamarca, nas escolas que fundou ou ajudou a fundar (as Escolas superiores populares) difundiu um ensino prático, adaptado às necessidades locais,  promovendo a linguagem comum (combate conhecido por målstrev [um bom paper sobre a questão linguística aqui]) por contraponto à linguagem “educada” da burocracia de língua dinamarquesa. Ainda hoje o termo “utdannet” – educado – tem conotações pejorativas, e era esse o termo aplicado a tais elites. Ao seu movimento se deve muito da construção nacional, da democratização do país, e do uso da linguagem comum na esfera pública nacional e no decidir e discutir os assuntos da res publica; de uma linguagem que recolhe a autoridade no que diz – e na forma como o diz – o homem comum no dia-a-dia,  não ao que disse este ou aquele figurão em termos que o cidadão comum mal entende. Grande parte da riqueza e bom funcionamento das sociedades escandinavas explica-se por este simples facto.

Volto a pensar novamente nisto a propósito do que vem escrito no artigo do I sobre o Manifesto pela Democratização do Regime:

“Sessenta personalidades de áreas como a política, economia, ensino, arquitetura, advocacia ou investigação subscrevem um manifesto divulgado hoje no qual defendem a reconstrução de um regime democrático e o fim da concentração do poder político nos partidos.

Entre os signatários do manifesto figuram os ex-ministros José Veiga Simão e Manuel Maria Carrilho, dos governos de António Guterres, os ex-deputados socialistas Henrique Neto, Eurico Figueiredo e Edmundo Pedro, o advogado Rómulo Machado, o historiador e deputado do Parlamento Europeu Rui Tavares, o capitão de Abril Vasco Lourenço, o escritor e encenador Hélder Costa e o músico João Gil.”

É que assim não vamos lá. Não vale a pena a esperança de democratização do regime enquanto os manifestos não retirarem a sua legitimidade e a sua autoridade de subscritores como o João bate-chapas, a Celeste da retrosaria, ou a Mónica do call-center. São esses os que na prática verdadeiramente precisam de uma democratização do regime, e os que na prática trarão legitimidade a qualquer democratização, bem como a linguagem comum e partilhada. Os nomes dos figurões e as profissões sonantes ali servem para menos que nada. Ou para mais do mesmo.

Sobre soliplass

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